Olegário Fernandes Filho dá continuidade ao Museu do Cordel, fundado pelo seu pai
POR CLARA DANIELLA
Fundado no dia 21 de agosto de 1999, o Museu do Cordel, localizado no Parque 18 de Maio, na Feira de Artesanato de Caruaru, é uma homenagem ao cordelista Olegário Fernandes da Silva, que descreveu a história do homem nordestino de forma extrovertida e poética. Ele morreu em 2002, deixando mais de 200 cordéis, sendo um marco para a cultura popular nordestina. Olegário Fernandes Filho é diretor do Museu do Cordel, fundado pelo seu pai. Além disso, ele é também membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel e cordelista. O acervo do Museu conta com cordéis tradicionais, antigos e raros, fotografias de poetas, livros sobre o assunto e máquinas de xilogravura e linogravura. O seu horário de funcionamento é das 8h às 16h, de segunda ao sábado. Em um bate-papo com Olegário Fernandes Filho, conhecemos um pouco sobre a história do seu pai e do Museu do Cordel.

Como surgiu essa relação do seu pai com a arte do cordel? Qual foi o primeiro cordel que ele escreveu?
A relação do meu pai, Olegário Fernandes, com a literatura de cordel ocorreu desde a infância, pois, quando ele era criança, o meu avô só o encontrava nas rodas de violeiros, de emboladores e declaradores de cordéis nas feiras populares vizinhas. Meu pai sempre foi de Caruaru, mas quando criança ia junto com meu avô para São Caetano, Bezerros, Gravatá, entre outras cidades vizinhas. E foi nessas idas às feiras populares que surgiu a aproximação do Olegário Fernandes com o cordel, despertando o seu dom e gosto por essa arte. O primeiro cordel do meu pai foi “A história do boi de Minas e as carnes contaminadas”. Esse cordel teve como influência uma denúncia feita na época da Ditadura Militar, na qual dizia que o homem que comesse da carne de Minas virava mulher e a mulher virava homem. No entanto, esse cordel não durou muito tempo no mercado. Por causa do autoritarismo dessa época, que desmentiu esse fato, e com medo de ser preso, o meu pai ficou um tempo fora e queimou os cordéis.
Como surgiu a ideia de criar um Museu do Cordel na Feira de Caruaru?
Meu pai percebeu que os amigos dele, que vendiam cordéis com ele, quando eram mais novos, iam falecendo, e as famílias destes pegavam seus trabalhos. Ou jogavam fora ou vendiam de graça. E tinham também os companheiros do meu pai que desistiram de vender cordéis. Para não serem esquecidos, seria necessário se ter um local para guardar o histórico de trabalho destas pessoas. Dessa forma, meu pai percebeu que seria importante ter um local, não apenas para guardar o seu acervo, mas também os dos seus amigos.
O Museu do Cordel Olegário Fernandes é de extrema importância para a cultura nordestina, pois contribui para sua valorização e sobrevivência, fazendo com que cordelistas do passado não sejam esquecidos, permitindo que a juventude e a sociedade em geral conheçam essas pessoas e a nossa cultura popular. Dessa forma, como você se sente colaborando para isso?
Eu me sinto feliz! Meu pai começou a declamar e publicar cordéis sem ninguém impor, pelo contrário, meu avô que sempre foi da agricultura não queria que ele fosse cordelista porque ele dizia que cordelista era “negócio de preguiçoso” e não dava dinheiro. Meu pai começou a limpar mato, trabalhando para alugado, o que hoje chamamos de trabalho terceirizado. Quando ele completou 16 anos, pegou o dinheiro, comprou muitos cordéis e deixou meu avô. Foi nessa época que meu pai começou a fazer cordel. Ele veio parar em 2002 com 70 anos de idade. Agora, a questão da essência e do prazer que ele teve como cordelista, mesmo sem cobrar nada, assim como eu também não cobro, tudo isso para fazer perpetuar e não ficar esquecida a nossa literatura de cordel, nem os cordelistas. Para mim, é muito gratificante. Vou continuar, como meu pai, só irei deixar o cordel quando falecer.
O Museu recebe muitas visitas de estudantes?
Está começando a receber. Com relação aos anos anteriores, hoje em dia, o Museu do Cordel é bastante visitado, mas ainda poderia melhorar. A falta de divulgação desse Museu pelos veículos de comunicação de massa é o que dificulta a ida das pessoas para esse local. Quando se fala em Caruaru, a mídia dá destaque em apenas dois museus, o do Mestre Vitalino e o de Luiz Gonzaga, fazendo as pessoas acharem que existam apenas esses museus nessa cidade. Além disso, também há a falta de uma massa governamental que dê apoio para os artistas populares.
Quais os principais nomes de cordelistas que se tem no Museu?
Se for de Caruaru, temos Olegário Fernandes, Severino Cristóvão, José Soares da Silva (Dila), que é mestre da xilogravura, Paulo Pereira, Raudenio Lima, entre outros que não me recordo agora. Falando agora dos artistas que têm destaque nacional e internacional, temos nomes como Leandro Gomes de Barros, João Martins, José Pacheco e João Paraibano.
Focando agora mais em você, quando começou a se interessar pelo cordel? E por quê?
Eu nasci no berço de cordelista, mas isso não queria dizer que eu tinha que ser do mesmo meio. Meu pai, por exemplo, não queria que eu fosse cordelista pelo fato do cordel não da dinheiro e que as coisas estavam se modificando com o rádio, a televisão, a internet. Mas eu decidi combinar a literatura do cordel com o novo. Eu vendia cordéis com meu pai na feira, era magnífica a venda de cordéis naquela época, ainda que muitas pessoas não soubessem ler.
Qual foi o seu primeiro cordel?
Foi “O nego cão e a bêbada apaixonada”. Escrevi ele entre 1997 e 1998, não lembro a data exata. Esse cordel tive como inspiração uma história real, na qual o homem vivia todo dia bêbado e o apelido dele era Nego Cão. Tinha a bêbada apaixonada, pois todo dia esse homem mandava a mulher ir embora e ela negava dizendo que o amava.
Por último, ainda nesse meio sobre o cordel, quais as principais características temáticas e estéticas do cordel?
Cada cordelista tem seu ponto de vista cordeliano. O meu é o mais gracejo e história real, pois, como eu trabalho em sala de aula, o educacional tem que ter o realismo, e também tem que ser algo mais engraçado, para deixar mais leve. Já o meu pai, Olegário Fernandes, era um poeta repórter, que é aquele que diante um acontecimento recente, faz um cordel no mesmo instante, mantendo sua atualidade. O Atentado às Torres Gêmeas, por exemplo, no mesmo dia o meu pai fez o cordel sobre esse caso. Quem quisesse saber das notícias atuais daquela época, já sabia que meu pai vendia.

