‘’Eu quero ser útil socialmente no meu trabalho‘’, diz Gabi da Pele Preta

A cantora caruaruense Gabi da Pele Preta relata que o objetivo do seu trabalho é provocar reflexão e poder transformar a vida de quem a escuta 

POR DAYANE JENNIFER

Gabriele Freitas, que tem o nome artístico Gabi Da Pele Preta, é artista caruaruense e cantora profissional desde os 20 anos. Nas suas canções, é forte a presença os elementos da Bossa Nova, Samba e Jazz que moldam o carácter político que a cantora passa nas músicas. Começou no meio musical quando ainda era criança, cantando nos louvores da igreja evangélica que sua família participava. Além de cantora, Gabi é formada em Comunicação Social. Atualmente, trabalha como publicitária, professora de Música e Teatro em Caruaru e é idealizadora do projeto Trampos Sororos, que ajuda as mulheres a conquistar espaços na produção artística. Participou também de vários eventos da Região neste ano, como o Festival de Inverno de Garanhuns e São João de Caruaru, no Polo Azulão.

Gabi, qual a mensagem que sua música e sua figura quer passar para os seus consumidores? 

Meus pais foram formados em História. Então, eu sempre tive o que aprender com eles e um dos resultados foi a influência musical. Eu sempre escutei muito Chico Buarque, Gilberto Gil, Zé Ramalho e todos aqueles artistas que participaram do movimento da Tropicália. A música, para mim, foi para além do entretenimento, pois ela cumpre um papel social, mostrando várias realidades e dores. Hoje, nós nos encontramos em uma situação parecida com o que os artistas que eu me inspirava viviam no período da Ditadura de 1964 a 1985. Então, relatar e militar nas minhas músicas se tornou um papel fundamental. Não que o entretenimento não seja necessário, pois é sempre bom podermos deixar as coisas mais leves com uma música que festeja a vida, mas devemos ir para além disso também, como por exemplo outros artistas contemporâneos a mim, como Liniker que leva representatividade LGBT para os palcos e se mobiliza socialmente. Meu objetivo na música sempre foi ser útil, trazendo um carácter social.

 Com a crescente expansão do cenário musical caruaruense e pernambucano, levando nomes como Johnny Hooker e Almério para outros eixos de público, qual os seus objetivos com essas novas possibilidades para o futuro?

Apesar de conhecer pouco sobre Johnny Hooker eu sou mais próxima de Almério. Nós [eu e Almério] somos contemporâneos e caruaruense. Assim, sempre tive muito contato com ele nos grupos de teatro que participávamos. Almério está crescendo hoje no mundo da música depois de trabalhar duro para fazer o seu primeiro álbum. Até brincamos que, enquanto ele estava fazendo o seu álbum, eu estava fazendo minha casa pois, pra mim, ter um lar é ideal porque eu posso ter uma segurança maior do futuro e poder investir na minha carreira. Hoje, eu e Almério participamos da mesma gravadora e, nela, eu estou conseguindo me firmar e ficar mais sólida no mercado, já pensando em singles e álbuns que posso lançar com a minha identidade e meus objetivos.

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Gabi na Marcha das Mulheres pelo #EleNão. Acervo pessoal. Foto: Sarah Teodósio

 No contexto atual, é necessário artistas se posicionarem sobre a situação política do Brasil. Nas suas redes sociais, conseguimos ver que esse posicionamento sempre foi muito forte. Quais as dificuldades e as necessidades de você se posicionar?

 Infelizmente, perde público quando os artistas se posicionam, mas a gente tem que falar pra quem quer nos ouvir. Eu sou uma mulher negra, periférica, nordestina e professora. As pautas que eu falo na minha música são pautas reais que eu passo diariamente. As pessoas tendem a colocar os artistas como pessoas que servem para entreter, mas eles servem também para colocar as questões que os tocam, pois somos pessoas comuns. Quando eu estou doente, eu não vou pra um hospital pago pelo meu plano de saúde, mas sim para um hospital público e serei atendida do mesmo jeito dos demais que estão comigo. Sendo assim, a minha vivência interfere nas músicas que eu faço, pois eu sou uma pessoa comum, que tem problemas como várias outras pessoas têm.

No seu Projeto Trampos Sororos o objetivo é movimentar e envolver mulheres no meio cultural da Região. Como esse projeto funciona?

O Trampo Sororos é um catálogo de mulheres que participam do meio de produção cultural, mas que são difíceis de ser encontradas. Assim, a gente junta esse pessoal no Instagram que temos e colocamos indicações de mulheres das mais diversas áreas na parte cinematográfica até a parte de indústria musical. Além de mostrar para as pessoas opções de mulheres nessa função, muitas se inspiram com a proposta e veem que podem participar desse meio que é tão ocupado por homens. Outro projeto parecido é o Sêla, que é acompanhado por uma assessoria para ingressar profissionais mulheres nas funções de produção cultural, montando uma equipe qualificada.

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Gabi no Festival de Inverno de Garanhuns de 2018. Acervo Pessoal. Foto: Nichole Andrade

Você se apresentou no espaço do Polo Azulão no período do São João de Caruaru este ano, que é um local que divide opiniões por ser algo para além do “tradicional” São João da Região. Mas, para você, o que esse espaço pode trazer ou representar para a população caruaruense?

A gente sabe que, embora Caruaru seja reconhecida como a Capital do Forró, é difícil ser encontrado locais que tenham forró durante o ano. Porém, existem muitos outros locais que tocam música ao vivo sem ser forró e que movimentam a cidade durante o resto do ano. Ter o Polo Azulão hoje com uma estrutura mais adequada, depois de anos de ocupação, é necessário para dar visibilidade para os artistas que participam do dia a dia na música caruaruense. O Polo também é um local que foi conseguido a partir de muita luta, pois sabemos que existe uma inferiorização desse local em relação aos demais palcos, tendo em vista a questão de cachê quanto a questão de espaço. A responsabilidade com pagamentos ainda é algo que demora a acontecer e a estratégia de localização é simbólica, pois mostra que a gente está meio fora da festa, ficando no meio da rua. Acho que o Polo deve ser melhorado por questão de dar visibilidade a quem movimenta a cidade em outros dias, que não sejam os do mês de junho, fazendo os artistas serem reconhecidos.

 

 

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