“Estar na rua não é bom, não é fácil”

A frase da moradora de rua Gina Silva representa o sentimento das pessoas em situação de rua, que contam sobre seus obstáculos diários a partir da invisibilidade que cerca suas sobrevivências.

Por Amanda Oliveira, Larissa Ferreira e Sarah Coutinho

Os moradores de rua estão por toda parte em Caruaru, mas são invisibilizados. De acordo com a coordenadora do Centro Pop – Centro de Referência de Pernambuco responsável pelo acolhimento de pessoas em situações de rua –, Edilene Albuquerque, 95% são migrantes de outros municípios de Pernambuco, de outros estados do Nordeste ou até mesmo de fora do País. A maioria, cerca de 90%, é formada por homens. Segundo a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Social entre os anos de 2007 e 2008, os principais motivos que levam as pessoas a morar nas ruas são: dependência de drogas (35,5%), desemprego (29,8%) e conflitos familiares (29,1%). O percentual de pessoas em situação de rua não é possível de ser definido, visto que, para a apuração de dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), é necessário o endereço de moradia fixa. Mas, nesse caso, são pessoas  sem endereço e em constante transitoriedade.

De acordo com as dez pessoas entrevistadas em Caruaru para esta reportagem, as principais causas que levam à moradia nas ruas correspondem aos motivos descritos pela Pesquisa Nacional, juntamente com doenças psiquiátricas. O morador de rua Adalberto Fragoso*, de 28 anos, vive nas ruas há seis anos e conta quais foram suas razões para fazer das praças e calçadas a sua casa. “Peguei depressão após o término com a minha namorada. Minha família não soube lidar com a doença e não me apoiou. Isso me trouxe às ruas”, menciona o ex-técnico em programação. Já a ex-técnica de enfermagem Gina Silva*, de 35 anos, transsexual, contou sobre os seus motivos para estar na rua há quatro anos. “Apesar de o meu pai ser evangélico, tentou estuprar minha irmã. Foi quando a família se desestruturou e comecei a usar o crack como escape”, disse.

Em Caruaru, estão localizados dois centros no bairro Indianópolis que acolhem os moradores de rua e funcionam de segunda à sexta: o Centro Pop e o Albergue Municipal. Durante o dia, o Centro Pop oferece café da manhã, almoço e higienização. À noite, o acolhimento ocorre no Albergue Municipal, local em que podem dormir, tomar café da manhã e jantar. Além destes, no município existem o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e o Centro de Atendimento aos Usuários de Drogas para Jovens e Adolescentes (Caud) para o auxílio de adolescentes usuários de drogas em situação de rua. Para o tratamento de adultos usuários de drogas, a cidade contava com o programa Atitude que, por motivos de falta de pagamento dos funcionários, parou de funcionar a quatro meses.

 Os invisíveis

A presença dessas pessoas em praças e calçadas da cidade causa incômodo e mal-estar à vizinhança, principalmente quando próximos aos centros de acolhimento, no qual o número de moradores de rua é ainda maior. A aposentada Aurora Leal reside no bairro Indianópolis há 40 anos e sente-se insegura com a presença da população em situação de rua. Ela alega que são pessoas difíceis de lidar e que o bairro está mais perigoso depois da chegada dessas instituições de apoio.   

Situações como pessoas que mudam de calçada fazem parte do cotidiano da população de rua. Segundo o morador de rua Gustavo Mendes*, a sociedade os generaliza como se todos fossem sujeitos ruins e criminosos. E isso implica a falta de auxílio da população para com esses indivíduos. Um exemplo disso é o caso de Leonardo Santos*, que pediu água a um vendedor ambulante e recebeu a água do gelo do isopor. Ao beber, chegou a desmaiar. O caso de Maria Nascimento* não é diferente. Ela necessitou de um copo d’água do Albergue, e não lhe foi concedido por ser um final de semana. Os funcionários alegaram a Maria que não poderiam entregar a água por risco de demissão, pois haviam câmeras de segurança filmando.

A mulher trans Gina Silva* conta sobre um caso de abuso sexual que passou enquanto dormia no Albergue. Segundo ela, nenhuma solução foi tomada por parte da instituição devido à falta de provas. “Tinha um rapaz se masturbando ao meu lado, eu fiquei super constrangida. Ele não soube respeitar minha escolha de não ficar com ele. Se não estou segura dentro deste local, imagine nas ruas. Estar na rua não é bom, não é fácil”, relata.

Apesar da situação de invisibilidade, Gina* não se cala. “Nós reclamamos das coisas  e o pessoal acha que não deveríamos exigir nada. Só porque está ruim, eles querem que eu agradeça e diga que está bom”, e afirma que quem se encontra na rua, não tem valor.

Ser invisível faz parte do cotidiano do casal que vive nas ruas de Caruaru. Foto: Sarah Coutinho

 Pode olhar, mas não pode registrar

Durante o processo de elaboração da reportagem, foram realizadas duas visitas ao Albergue Municipal de Caruaru para obter dados sobre o atendimento oferecido à população em situação de rua. E por razões como férias da coordenadora e sigilo das informações não permitiram a entrada da equipe de reportagem.

Foi necessária uma autorização da Secretaria Social de Desenvolvimento e Direitos Humanos para a visitação do Centro Pop, sendo este um centro de referência de Pernambuco em relação aos demais municípios, para explicar o motivo da  entrevista. Quando solicitada, uma série de requisitos para que fosse estabelecido o sigilo das informações dos moradores de rua, e inclusive quanto às informações das próprias instituições governamentais.

O atendimento na Secretaria foi realizado pela gerente do Sistema Único de Assistência Social (Suas), Priscila Azevedo. Logo depois, houve o direcionamento para a secretária executiva que proibiu a divulgação de informações e imagens dos moradores, como também, fotos dos centros de apoio, a fachada e objetos dos moradores não podiam ser fotografados. Foi alertado que muitos são procurados pela polícia ou por cobradores de dívidas, e que às informações das instituições obedecem a uma hierarquia e por isso é necessário cautela. “Não podemos falar nada que comprometa a nossa imagem”, completou a secretária executiva.

Quadro de fotografias no Centro Pop mostra forte vínculo dos moradores de rua com os animais. Foto: Sarah Coutinho

*nomes fictícios foram utilizados para a preservação da segurança e da identidade dos moradores de rua.

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