Arte, família e tradição: o legado dos mestres do Alto do Moura passado de geração a geração

Famílias do Barro mantêm vivas as memórias e a simplicidade do trabalho vindo da arte de se manejar o barro, no Alto do Moura, em Caruaru. 

Por Diego Mendes, Gabriel Pedroza e Gessica Amorim

Caruaru é uma das cidades do Agreste pernambucano que mantêm viva, a tradição da produção artesanal de peças feitas a partir do manejo do barro. O Alto do Moura, bairro da cidade, é considerado pela Unesco o maior centro de artes figurativas das Américas e abriga, hoje, cerca de 100 famílias que trabalham, direta ou indiretamente, com o barro, segundo dados da Associação dos Artesãos em Barro e Moradores do Alto do Moura (ABMAM). Esta tradição é mantida e passada de geração a geração pelas famílias do bairro, desde que Mestre Vitalino chegou ali, em 1948, trazendo uma nova perspectiva de trabalho para a comunidade. Desde então, o barro se tornou a principal fonte de renda e reconhecimento da região, fazendo com que ganhasse visibilidade nacional e internacional.  

Das famílias que trabalham com o barro no Alto do Moura, duas se destacam pela forma como a matéria-prima molda o significado de suas vidas e solidifica as suas relações, fortalecendo a sua união: a família da Mestra Ernestina, discípula de Mestre Vitalino e considerada pioneira, entre as mulheres caruaruenses, na confecção da arte figurativa, e a família do Mestre Zé Caboclo, amigo e também discípulo de Vitalino, conhecido por imprimir, em seu trabalho, imagens do cotidiano, do folclore, e por inovar no modo de produzir as suas peças, trazendo o relevo aos olhos de seus personagens e as cores para as suas produções.

Ateliê onde a família de Mestra Ernestina produz e vende suas peças. Foto: Géssica Amorim

Ernestina Antônia de Oliveira, Mestra Ernestina, nasceu em 1937 e faleceu em 2013, aos 76 anos de idade. Durante a sua vida, dedicou-se à arte do barro. Trabalhou na confecção de tipos elaborados de um modo clássico e característico do seu estilo, como “O pescador”, “Os Retirantes”, “O Cangaceiro” e “O Dentista”. Grande parte de suas obras foi vendida e outra parte foi doada. São poucas as peças que restaram do trabalho da artesã e que compõem o acervo de sua família atualmente.  Estas são guardadas a sete chaves pelos seus filhos, netos e genro, que foram diretamente influenciados pela sua arte. Hoje, eles são responsáveis por manter e passar para as próximas gerações, o legado deixado por Dona Ernestina.

Severino Barbosa. Artesão e genro de Mestra Ernestina. Foto: Géssica Amorim

O seu genro Severino Barbosa da Silva, 68 anos, conta que começou a trabalhar com o barro aos 20 anos, quando precisou, por recomendações médicas, deixar o emprego que tinha em uma cerâmica, onde trabalhava fabricando telhas e tijolos. Com o auxílio e a convite de sua esposa, cuja profissão lhe foi ensinada aos 8 anos por Dona Ernestina, começou a manejar a matéria-prima e a se interessar pela arte figurativa. Sobre a sogra, ele diz que a relação entre eles era como a de mãe e filho. “Era uma excelente mulher e uma grande artesã”, define. Ele relata que ainda se inspira na mestra em suas criações, sempre lembrando, enquanto faz suas peças, das obras que ela produzia. A recordação de Dona Ernestina molda a forma como sua neta, Elisvanda Barbosa, 40 anos, faz suas peças. Sempre rememorando a presença da avó, ela, junto com suas cinco irmãs e seu irmão, dão continuidade ao trabalho da primeira mulher artesã da região. Vanda, como é conhecida, faz questão de passar o ensinamento para sua filha de 8 anos, que já tem até um lugar ao lado da mãe para brincar de fazer arte. Para os familiares de Dona Ernestina, a simplicidade de suas peças não se reverbera na produção de outros artistas. Esta característica do modo de produção da Mestra até hoje é marca de um diferencial no modo de se fazer arte com o barro, no Alto do Moura.

Retrato do Mestre Zé Caboclo, fixado na parede da loja onde são vendidas as peças da família. Foto: Géssica Amorim

Assim, com simplicidade e dedicação à produção de cada peça, também trabalhava José Antônio da Silva, conhecido como Zé Caboclo. O artista nasceu em 1921 e faleceu em 1973, aos 52 anos, vítima de esquistossomose, doença conhecida popularmente como “barriga d’água”. O mestre, que ganhou reconhecimento e prestígio por ilustrar, em suas obras, cenas e personagens do cotidiano, não chegou a conhecer todos os seus netos, mas deixou com seus filhos um modo sensível e dedicado de se trabalhar com o barro, além da missão de levar às próximas gerações de sua família a arte que durante toda a vida lhe foi um meio de sustento.

É nítido, o valor que tem o barro no trabalho e nas relações entre os familiares de Zé Caboclo: Sete dos seus  oito filhos optaram por seguir os caminhos do pai e trabalham juntos na produção de peças feitas a partir da matéria-prima, seja dividindo espaço para a produção ou dividindo o forno usado para a queima das obras. Paulo Rodrigues, 68 anos, o filho mais velho de Zé Caboclo, conta que tomou gosto pela arte, quando tinha entre 12 e 13 anos de idade e que foi dele a escolha de aprender sobre a arte e trabalhar com ela. “A gente estudava, tinha outra opção, se quisesse, nosso pai deixava a gente livre para escolher, mas eu sentia que a arte era a coisa certa”, diz o artesão. Antônio Rodrigues, 67 anos, também artesão e filho de Zé Caboclo se orgulha das lembranças que guarda do pai, do seu modo de trabalhar e descreve o barro como um elo, que une e sustenta toda a família. “Me orgulho muito do meu pai. Foi vendo ele trabalhar que a gente se interessou. Com ele, eu comecei aprendendo a fazer cavalinho, essas coisas de criança. A gente não tinha brinquedo. Começamos assim. O barro, posso dizer, é tudo na vida da gente. Nós sobrevivemos por causa dele”, conta. Para Antônio, além de ser motivo de orgulho, a arte e a memória de Zé Caboclo merecem serem passadas adiante pelas futuras gerações da família. “É nosso dever divulgar, fortalecer esse trabalho. Preservar a memória. É bonito e também satisfatório olhar para o que foi o trabalho de Zé Caboclo”, completa.

Paulo Rodrigues dispõe em um dos fornos as peças que produziu. Foto: Géssica Amorim

A memória de Zé Caboclo, que foi guardada pelos seus filhos, se estende até os seus netos, que não puderam conhecê-lo pessoalmente e nem tiveram acesso direto aos seus ensinamentos. É o caso de Emerson Nogueira, 40 anos, que manuseia o barro desde criança e, hoje, tem o material como sua principal fonte de renda. Enquanto trabalha os detalhes de suas peças, o artesão lamenta o fato de não ter conhecido o avô e de como se orgulha por ser neto de Zé. “Infelizmente, não tive a oportunidade de conhecê-lo. Quando ele faleceu, eu ainda não tinha nascido. Eu ouvia muito a minha avó contar histórias sobre ele, sobre o seu trabalho. Eu sempre fui muito curioso. Me admira bastante e me dá prazer ouvir falar sobre ele, sobre o seu trabalho. Agora, a gente tem que dar continuidade a justamente isso, a sua arte, ao seu trabalho. Isso traz, cada vez mais, a lembrança dele e sustenta o seu legado”, conta o artesão. Sobre como começou, o que Emerson conta não é diferente do que dizem Paulo e Antônio. O seu interesse vem, também, da observação do trabalho de dos seus tios e da sua mãe. “Eu aprendi com meus familiares, observando a minha mãe e meus tios, fazendo as suas peças. Eu brincava muito fazendo cavalinho, boi, essas coisas de vaquejada”, conta. Perguntado se acredita que o barro une  mais a família, responde: “Com certeza. Trabalhando junto, a gente troca ideias, conversa, sempre estamos próximos. A gente se reúne, confecciona, queima junto, as peças. Isso é uma forma de união, de comunhão. Isso é muito bonito”

Apesar de não ter conhecido o seu avô Zé Caboclo pessoalmente, Emerson trabalha inspirado nas peças produzidas pelo Mestre. Foto: Géssica Amorim

Tanto a família de Dona Ernestina quanto a família de Zé Caboclo, apoiados pelos legados deixados pelos seus mestres, enxergam o barro como algo que vai além do seu valor comercial, seu valor de mercado. Em suas histórias, a matéria-prima é marcada como o símbolo do sustento de uma tradição. É o que estabelece uma conexão entre os artesãos, o que sustenta as suas relações e solidifica as suas lembranças e o seu respeito pela arte do barro, que vai sendo passada de geração a geração a cada peça produzida por suas mãos. 

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Peças de Paulo Rodrigues, dispostas no forno e prontas para serem queimadas. Foto: Géssica Amorim

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