Um amante do cinema no interior de Pernambuco
POR DANIEL NASCIMENTO
Alexandre Soares (39), cresceu em Taquaritinga do Norte, cidade que fica à 190km da capital pernambucana. Desde a infância na “Dália da Serra” (apelido da sua cidade) sempre foi um apaixonado por cinema, cresceu vendo filmes no cinema de rua do pacato município do agreste setentrional. Soares, é o idealizador do Festival de Cinema Curta Taquary. Desde a primeira edição, realizada em 2005 em Taquaritinga do Norte, o evento vem se firmando como uma das principais janelas de exibição do cinema independente do Brasil, além de abrir espaço para produções de países na América Latina, como Chile, México, Urugaui e Argentina.
Sua formação inicial não tem nada a ver com cinema . Como foi que surgiu esse desejo de trabalhar com cinema em uma cidade do interior de Pernambuco, que possui cerca de 27 mil habitantes ?
Sou um louco por histórias, desde criança sou encantado pela magia do audiovisual e me imaginei vivendo nesse universo. Eu era uma das crianças que nos fins de semana em Taquaritinga do Norte, lotavam o Cine Teatro Santo Amaro que Infelizmente, como outros cinemas de rua, tiveram suas portas fechadas na década de 90. Foi nessa época, que, na ausência do cinema, comecei a produzir vídeos caseiros com a turma da rua. Brincávamos de fazer cinema. Hoje, como profissional, já produzi curtas, longas, séries, além de participações em festivais de cinema como júri, convidado ou realizador. Um bocado de coisa que me orgulho de ter feito. Ainda continuo brincando de fazer cinema, um dia aprendo.
Quando você sentiu a necessidade de criar o Curta Taquary e qual a principal finalidade dele?
A paixão pelo cinema me fez encontrar outros caminhos no audiovisual e os festivais de cinema sempre estiveram presentes. O Curta Taquary surgiu com a necessidade de voltar a exibir filmes para o público de minha cidade. Atualmente, além das sessões que são realizadas em Praça pública, realizamos exibições em escolas públicas, oficinas de formação para estudantes e público em geral. Há também um encontro de cinema e educação, além de exposições fotográficas, atrações musicais e outras atividades que tenham como finalidade levar cultura e conhecimento para Taquaritinga do Norte e região.
O Curta Taquary é um festival de cinema importante em território nacional e na América Latina. Como é o processo de escolha dos filmes que são exibidos?
A ideia do festival é levar para o Agreste pernambucano obras de diversas narrativas, oriundas de várias partes do Brasil e do mundo e que possam levar reflexão para a plateia. A seleção de filmes do festival é feita por meio de uma convocatória que fazemos online para diretores do território nacional. A partir dessas inscrições, um grupo de curadores fazem a seleção anual. Na última edição para se ter ideia, tivemos ao todo 11 curadores, todos profissionais da área, que analisaram 368 curtas metragens e selecionaram 74, para seis mostras competitivas. Para a mostra internacional, contamos com curadores de países convidados que trazem um apanhado, em sua grande maioria, de obras da América Latina.
Em 2019, o curta Taquary irá para sua 12° edição, você já tem novidades sobre o que está por vir no novo ano do evento?
Além de mais exibições nas escolas, iremos ampliar as mesas de discussão. Sempre tivemos a ideia e o festival ser palco de discussões de assuntos necessários, e urgentes, na próxima edição, não será diferente e a ideia é continuar fomentando espaços para as pessoas se reunirem.
Sua produtora Taquary Filmes já produziu diversos curtas metragens que foram premiados em diversos festivais de cinema. O curta repulsa é o de maior sucesso, sendo destaque em diversos festivais de cinema internacional. Na sua visão, qual deve ser o motivo de esse filme estar fazendo tanto sucesso?
Repulsa é um curta rodado na Zona da Mata pernambucana, escrito e dirigido por Eduardo Morotó que fala sobre as práticas políticas da formação de nosso país. Nos orgulhamos muito de tê-lo filmado e vê-lo circulando por vários lugares que prezamos: cineclubes, universidades, escolas, mostras e festivais de cinema pelo Brasil, Coréia do Sul, Chile e França. Acredito no poder de contarmos nossas próprias estórias e como podemos utilizar nossa arte como ferramenta de transformação.

Foto: See Wee Aw.
Como você analisa o cenário atual do cinema pernambucano e do resto do país?
Temos um dos melhores cinemas do mundo! O audiovisual brasileiro tem crescido e fortalecido graças às políticas públicas de apoio ao fomento. Isso é essencial para a cadeia produtiva, pois sem apoio governamental não se faz cinema. Posso exemplificar: em seus 11 anos do edital Funculutura, Pernambuco fez uma revolução em sua produção, desenvolvimento, difusão, formação, cineclubismo e preservação. Além de gerar emprego e renda, vemos a produção pernambucana circular dentro do Estado e nos principais festivais de cinema do mundo. Isso é maravilhoso! Porém ainda é só o começo. Há muito caminho a percorrer.
A produção de cultura no país está sendo alvo de diversos questionamentos por uma camada da população brasileira, entre um dos principais motivos a Lei Rouanet, que incentiva à cultura. Como você enxerga essas polêmicas no meio artístico?
A cultura é necessária para a soberania de uma nação. É importante o estímulo / preservação e divulgação dos produtos culturais de um país e é dever do Estado fomentar a cultura. A lei Rouanet é apenas uma dessas ferramentas, tem seus prós e contras, funciona bem mais para os grandes espetáculos. É difícil para um pequeno produtor conseguir captar recursos. Em relação à política, o que mais me incomoda é a falta de conhecimento dessas pessoas, não sabem nada sobre a Rouanet, nem sobre arte e usam a cultura como ferramenta de politicagem.
Quem são seus ídolos no cinema e pq?
Jodorowsky, Kubrick, Marcelo Gomes, José Mojica Marins. Por suas visões e maneiras bem particulares de contar narrativas.
O que é cinema pra você?
Uma maravilhosa engenhoca de contar e preservar histórias.
Foto: Saullo Dannylck
