Desmitificando a bissexualidade

Mesmo não sendo comentada ela existe e é mais comum do que parece. 

POR RAUANY NATÉRCIA

Mesmo com tanta discussão atualmente sobre a comunidade LGBT, a bissexualidade ainda é pouco explorada e mal vista tanto dentro quanto fora da comunidade. Bissexualidade ao contrário do que muitos pensam não é sinônimo de confusão, não é sobre estar em fase de negação ou aceitação sobre sua orientação sexual. Os estereótipos e o fetichismo são realidades que pessoas bi precisam enfrentar todos os dias e que fortalecem o preconceiro. Em entrevista concedida à universitária Rauany Natércia, a estudante do curso de comunicação social do Centro Acadêmico do Agreste(CAA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que preferiu não ser identificada, apoiadora do movimento LGBT, bissexual  e militante feminista, respondeu algumas questões.

-Você já sentiu preconceito entre os membros da comunidade LGBT por ser bissexual?

Felizmente não. Nunca senti pessoalmente esse preconceito, mas sei que existe. Sei que há pessoas da própria comunidade LGBT que acham que não existe bissexualidade, que somos gays e lésbicas que não têm coragem para se assumir e acabam sendo preconceituosos.

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Foto: Cladisson Melo

-Como você se sente com o fato de algumas pessoas associarem bissexualidade com promiscuidade ou indecisão?

Essa é uma questão que dói porque é um estereótipo que fazem sobre nós. Lembro que Durval Muniz (historiador e escritor, neste caso a entrevistada faz referência a obra A Invenção do Nordeste que aborda estereótipos) fala em um de seus livros que o estereótipo acontece quando alguém arroga do direito de definir o outro em poucas palavras, e é exatamente o que acontece. Outras pessoas afirmam um achismo pessoal de que bissexuais são promíscuos. A única diferença de nós para héteros, gays, lésbicas e etc. é que teoricamente “temos mais opção”, mas isso não significa sair por aí se relacionando com um monte de gente. Sexualidade não é indicador de promiscuidade.

-Porque você acha que tantas pessoas preferem permanecer em silencio sobre a própria sexualidade?

Por medo, geralmente do preconceito não só externo, mas vindo dos próprios amigos e familiares. Alguns vivem em ambientes desfavoráveis, o que só gera mais tensão em relação à possibilidade de repressão. É lindo quando em alguns filmes ou séries, personagens assumem que não são héteros e recebem frases como “ Vou continuar te amando” do seu circulo social, mas não é isso o que acontece sempre. Hoje eu consigo falar abertamente para os meus amigos e conhecidos sobre minha sexualidade. Mas já aconteceu que eu evitasse falar para alguns amigos, por não querer causar desconforto. Da minha família, apenas a minha mãe sabe. Por não ter uma relação de proximidade com os meus familiares e ter consciência da religiosidade de muitos deles, prefiro manter em segredo.

-Como foi falar para sua mãe?

Foi péssimo, uma das piores conversas que já tivemos, senão a pior. Falei para ela diretamente e em poucas palavras e após uma breve conversa, recebi a frase: “ eu preferia nunca saber disso, preferia levar um tiro”. Não conseguia e não consigo entender o que há de tão errado em se sentir atraída por pessoas do mesmo sexo.

-A bissexualidade não é muito discutida nem tão problematizada. Como você acha que deveríamos abordar o tema?

Acho que os estereótipos são os pontos mais importantes de serem abordados. Precisamos falar sobre o fato que a bissexualidade não significa promiscuidade ou indecisão. Já é difícil para alguns se aceitar imagina ainda ter que lidar com a confusão causada por falas como “você ou é gay/lésbica ou hétero, não existe isso de gostar dos dois”, esse tipo de comentário só torna mais complicado o processo, além de ser uma negação a nossa existência, como se o “B” da sigla LGBT não significasse nada.

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