“Encaro como uma missão”, diz Maria das Dores de Brito, fundadora do Serc de Gravatá

Maria das Dores de Brito, coordenadora de desenvolvimento comunitário e pedagógico do Serviço de Estruturação e Reabilitação da Criança (Serc) em Gravatá.

POR NILSON JÚNIOR

Maria das Dores de Brito, de 52 anos, formada em Teologia pela Faculdade de Teologia e Religião (Fater) e Pedagogia pela Universidade de Pernambuco (UPE) é coordenadora de Desenvolvimento Comunitário e Pedagógico do Serviço de Estruturação e Reabilitação da Criança (Serc) em Gravatá, Agreste de Pernambuco. O Serc foi fundado em 1988 por oito mulheres. Atualmente, atende a 185 famílias com crianças e adolescentes de Gravatá e Municípios circunvizinhos priorizando o atendimento a famílias de baixa renda. O corpo técnico da instituição é composto por 15 pessoas entre profissionais das áreas de saúde, educação e administração, incluindo voluntários.

O Serc tem um forte vínculo feminino em sua história, contando com forte colaboração das mulheres para sua existência. Qual foi a importância das mulheres, para além das oito fundadoras?

 A importância do papel das mulheres têm sido fantástica. Não só das oito, mas de todas as mulheres que passaram na instituição, que estão na instituição. As mães são as principais guerreiras, as principais monitoras desse processo de inclusão, de poder assegurar o direito do seu filho de estar na reabilitação, de estar incluído, de estar nas faculdades. O papel das mães é fundamental nisso.

Como é o trabalho de integração entre as famílias e a instituição. Há uma troca constante entre as partes?

Eu acredito que sim, porque temos as reuniões mensais, orientações, conversas. É sempre um apoio entre Serc e as famílias e famílias e Serc. Há dificuldades, mas há um trabalho de evolução e a gente percebe isso naturalmente na evolução das crianças quando essa comunicação direta é compreendida.

Como você foi motivada a estar no Serc?

Fui motivada pelo meu irmão. Tive um irmão deficiente, falecido. Vim à primeira reunião com as famílias no Serc. Minha mãe não pôde comparecer e, nessa reunião, fui motivada a ser mais presente. Poderia ajudar meu irmão, mas, ao mesmo tempo, ser companheira de outras pessoas, e ajudá-las. Eu sempre tive muito essa questão de vivenciar um ambiente, dessa troca com o outro, de aprender com o outro, mas também colaborar com o outro. E isso me motiva até hoje. Estou no Serc, nessa função, nessa missão porque tenho esse compromisso com o outro, de proteção, de luta por direitos. Eu acredito nessa perspectiva de unidade de sociedade. A sociedade inclusiva que gera oportunidades para todos. Tenho dificuldade de lidar com um contexto que seja muito fechado, do eu. Prefiro o coletivo, apesar de também ser difícil, trabalhar com coletivo, não é coisa fácil.

Como funciona a gestão do Serc?

Nós temos os sócios fundadores, essas oito mulheres fundadoras fazem parte do quadro. Hoje, elas participam indiretamente do Serc. Das fundadoras, apenas eu estou na ativa. O Serc é composto pela Assembleia Geral dos Sócios que elege o Conselho Diretor, formado por pessoas da comunidade. Esse Conselho Diretor tem na sua composição uma coordenação colegiada. Eu divido a coordenação com mais três mulheres. O Conselho Diretor é composto em sua maioria por mulheres, assim como a Assembleia Geral dos Sócios têm majoritariamente mulheres. Há homens, mas as mulheres são maioria. Temos alma feminina. Além de mim na coordenadoria de desenvolvimento comunitário e pedagógico, temos Ana Borges na coordenadoria de saúde e pedagógica, Maria da Paz, na coordenação administrativa, e Catarina Silamate, na coordenação de programas sociais.

Em comparação há 30 anos quando o Serc foi fundado, como você avalia a integração dos deficientes na sociedade?

Eu vejo hoje uma parceria muito maior. Por exemplo, em Gravatá se pensou que tinha pouquíssimas Pessoas com Deficiência, porém essas pessoas estavam em casa, não ocupavam seus espaços. Após 30 anos, tudo muda dentro de uma relação de políticas públicas, de sociedade, de contexto de família. Quando você vê, hoje, muitos jovens com deficiência, inclusos dentro de uma faculdade, de uma universidade, essa relação muda. Cada vez mais, eles são emponderados de seus direitos. O País começa a visualizar pessoas com deficiência como sujeito de sua história, tendo toda uma legislação que permite que as pessoas (com deficiência) se aparem nela e diga: “Eu estou aqui, porque aqui é o meu lugar”. Eu compreendo que mudou muito o contexto. Acho que é muito válido porque é isso que buscamos na sociedade, que gere igualdade de oportunidade, tendo a participação ativa das pessoas com deficiência.

O Serc é seu projeto de vida?

Não vejo apenas como um projeto de vida. Encaro como uma missão. Eu cuido dessa missão. Quando eu cheguei ao Serc, eu não tinha essa visão. Hoje, eu tenho. Faz mais de 28 anos que estou aqui dentro, sendo assim, tenho meu papel aqui dentro como missão de vida: cuidar da causa da pessoa com deficiência e defendê-la, mesmo que me deixe em situações muito difíceis. Quando você tem uma bandeira e você luta por ela, agrada pessoas e, ao mesmo tempo, desagrada outras. Às vezes, isso nas relações é um pouco difícil, mas tenho isso como meta.

Em sua opinião, quais são os principais problemas do poder público com relação às políticas públicas para deficientes?

Houve evolução, por exemplo, o País criou o Estatuto da Pessoa com Deficiência, restabeleceu política de educação, de saúde. Existem fragilidades, mas melhorou muito esse contexto. Em Gravatá, também tivemos avanços. A educação avançou a reabilitação também avançou. Além do Serc, temos o Centro de Inclusão Gravatá (CIG), por exemplo. Ainda existe tabu, preconceito, visão arcaica. Depende muito do sistema de governo, se é um governo que tem uma visão muito mais socialista, essa politica estará em avanço. Se é um governo que tem uma visão capitalista, com uma visão tradicional, digamos assim, haverá dificuldades. Quando é um gestor que olha para a causa, ele estará contribuindo mais.

Quais são as dificuldades encaradas (hoje) no Serc?

As principais dificuldades são financeiras para manter o aumento da qualidade do atendimento. Isso dificulta muito quando não temos recursos para manter a equipe de profissionais. O trabalho de reabilitação não consegue ter evolução com equipe de voluntários. É necessária uma equipe permanente. Precisamos do apoio dos cidadãos comuns para se manter na ativa nos seus projetos e programas. As dificuldades estão concentradas no campo financeiro porque quando se tem recursos você busca todas as outras oportunidades.

Qual sua perspectiva de futuro com relação aos deficientes, principalmente diante da realidade em Gravatá?

Observo que se tiver em um sistema de Governo inclusivo, teremos avanços. Se formos à contramão disso, um governo fechado, teremos dificuldades. Nesses sistemas, os direitos não são assegurados, portanto a pessoa com deficiência perde benefícios. O direito à inclusão, deixando de ocupar seus espaços. Percebo que podemos ter retrocessos nisso.

Um livro?

A bíblia.

Uma frase?

O amor tudo pode.

Um sonho?

Tornar o Serc cada vez mais amplo, mais organizado e um País com maior ascendência dos deficientes na sociedade.

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