Para cientista política Ana Maria Barros, o discurso de ódio ficou marcado nessas eleições e ainda reitera que, depois dessas eleições, o Brasil não será o mesmo.
POR HEBERTON MARTINS
Ana Maria Barros, 53 anos, é professora há 35 anos e leciona na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) há 10 anos. Além de cientista política, trabalha no curso de pedagogia e no mestrado em direitos humanos e, desde 2014, coordena o curso de licenciatura indígena do Campus Acadêmicos do Agreste (CAA) na UFPE. De acordo com Ana Maria Barros, o gosto pela política passou pelos ensinamentos da família que sempre a aconselhou que política é o ato de transformar o mundo. Em entrevista ao repórter Herberton Cesar, ela comentou as eleições de 2018 no País e no Estado de Pernambuco e enfatizou que essas eleições ficaram marcadas por vários discursos de ódio, sobretudo, feitas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).
Os resultados das eleições em Caruaru foram surpreendentes?
As surpresas foram às vitórias do jornalista Fernando Rodolpho (PHS) para deputado federal e do Delegado Lessa (PP), que foi candidato à prefeito de Caruaru em 2016. Mas era previsível às vitórias do deputado federal reeleito Wolney Queiroz (PDT), e do seu pai o ex-prefeito de Caruaru José Queiroz (PDT), além do ex-prefeito de Caruaru, agora reeleito deputado estadual, Tony Gel (PMDB). Houve dificuldades de Laura Gomes (PSB) em se reeleger, o que acabou de fato não acontecendo, em virtude da falta de apoio, principalmente de José Queiroz.
Em Pernambuco, a reeleição de Paulo Câmara era esperada?
Em Pernambuco, houve um acirramento, mas as pesquisas confirmaram os resultados, já que havia um prognóstico de vitória do governador reeleito Paulo Câmara (PSB) em relação ao senador Armando Monteiro (PTB). A surpresa foi o placar apertado, porque Paulo Câmara, nas pesquisas, dava indícios que venceria com mais tranquilidade e as votações mostraram um acirramento pelo voto.
Em relação à disputa presidencial houve grandes surpresas?
Não houve surpresas. Vimos que as pesquisas mostravam o Jair Bolsonaro (PSL) que ficou com 55,13% dos votos apurados à frente. Houve um crescimento do candidato do PT, Fernando Haddad, que perdeu com 44,87% dos votos no segundo turno. Mas a previsão é que o Bolsonaro ganhasse no primeiro turno, mesmo as pesquisas mostrando dificuldades para Bolsonaro em um eventual segundo turno. Quando chegou ao segundo turno, as pesquisas davam uma margem de diferença para Bolsonaro de mais de 10 milhões de votos. Haddad correu atrás, pois estava com 4% no início da campanha.
Por quais motivos levaram o eleitor a eleger Jair Bolsonaro, mesmo ele tendo um discurso que desagradasse muitas pessoas?
Vinhamos de quatro governos do PT, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, tivemos o Michel Temer que é um presidente altamente impopular. Mesmo o governo do PT mostrando muitos programas sociais, houve fortes escândalos no governo deles. Bolsonaro, que até então era um deputado insignificante, passou mais de 27 anos como deputado e não tinha visibilidade nenhuma, mas ele conseguiu puxar para ele todo sentimento antipetista, o sentimento anticorrupção. Fez uma campanha forte nas redes sociais. Conseguiu regimentar apoio em toda parte do País, mesmo que o discurso dele seja de valores antidemocráticos com cunho fascista, como a defesa, no passado, pelo fechamento do Congresso, pela tortura e valorização do ex-chefe DOI-CODI do regime militar o Coronel Ustra. Disse palavras discriminatórias contra negros, mulheres e comunidades LGBT’s. Apesar de tudo isso, grande parte das pessoas valorizou esse discurso. Agora, vamos torcer para que ele faça um governo que respeite a Constituição e que não cumpra esse discurso antidemocrático que ele fomentou.
Quais os fatores que levaram a derrota do PT? Houve erro de estratégia durante a campanha?
A derrota do PT está vinculada com vários erros de estratégia, mas temos que entender que o cenário político brasileiro está profundamente favorável ao crescimento da direita. Isso ficou claro durante a greve dos caminhoneiros com várias pessoas pedindo intervenção militar. Mas é preciso compreender que houve um erro de estratégia no lançamento da candidatura do Haddad, que saiu atrasada, e também a insistência na candidatura do ex-presidente Lula (que está preso). O PT perdeu a chance de compor uma grande frente democrática. No segundo turno, o Haddad assumiu como candidato de fato, mas a diferença de votos para o Bolsonaro era grande. A maior parte dos votos de Ciro Gomes (PDT) migrou para Haddad e dos demais candidatos para Bolsonaro. A esquerda vai ter que esperar mais quatro anos para repensar um grande acordo nacional. Não apenas do PT, mas de todas as forças progressivas para enfrentar esse caminho autoritário, que não se situa apenas no Brasil, mas em outros países.
Houve uma renovação de 51% na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Quais os fatores que propiciaram essa mudança?
Não apenas na Assembleia Legislativa de Pernambuco, o Congresso Nacional todo, bem como a alternância de poder com a vitória de Jair Bolsonaro. Ainda não sabemos se é uma mudança qualitativa. Tivemos o aumento do número de mulheres. Pela primeira vez, tivemos uma chapa formada só por mulheres que foi o Coletivo Juntas. Dentro dessa chapa, uma mulher transexual. Mas só vamos sentir na prática se essas mudanças são qualitativas, quando os deputados eleitos assumirem.
Porém, ao mesmo tempo, pelo menos 13 deputados estaduais possuem algum vínculo familiar. Isso atenua o fator renovação?
A questão dos vínculos familiares é fruto do clientelismo, da política passada de pai para filho. O espaço público do poder é dominado por grandes políticos. Por exemplo, no caso de Bolsonaro, temos quase todos os filhos dele envolvidos com política. Essa cultura política faz com que as elites do poder consigam construir um discurso de renovação, que nada mais é que a perpetuação das famílias no poder.

Em Caruaru, a prefeita Raquel Lyra não apoiou políticos tradicionais da cidade, preferindo apoiar Priscila Krause e o Daniel Coelho, que são pouco conhecidos em Caruaru. Mesmo o dois conseguindo se reeleger, esse apoio foi positivo para Raquel em termos de influência política, principalmente para 2020?
Ela buscou apoios na deputada estadual reeleita Priscila Krause (DEM), filha do ex-prefeito do Recife Gustavo Krause, e no deputado federal reeleito Daniel Coelho (PSDB), porque se formos observar localmente os deputados que se elegeram, não faz parte da base de apoio dela. O Delegado Lessa fez oposição a ela nas eleições de 2016, assim como Tony Gel não buscou dialogar com ela. Então, buscou candidatos de fora, com intuito de buscar diálogos. Ela não teve sucesso que esperava em termos quantitativos de votos nos candidatos que ela apoiou, mas, sem dúvidas, foi bastante significativo a vitória de Armando Monteiro na cidade.
O governador Paulo Câmara saiu fortalecido no Estado? Já que seu partido (PSB), junto com (PP), conseguiu a maior bancada na Alepe?
A vitória do Paulo Câmara foi inegável. Ele sai extremamente fortalecido, não apenas por ter vencido no primeiro turno, mas por fazer uma bancada com deputados como a delegada Gleide Ângelo, que teve a maior votação para deputado estadual no Estado. Mas ao mesmo tempo, o presidente que ele apoiou (Haddad) não foi eleito. Mas, do ponto de vista local, ele sai muito fortalecido. Se formos pegar o exemplo de Caruaru, só na base de Paulo Câmara, temos o Delegado Lessa, Tony Gel e José Queiroz. Foi muito ruim para oposição em Pernambuco o resultado eleitoral.
Mas em Caruaru o governador perdeu para Armando Monteiro, o que corroborou para esse resultado? O governo dele deixou a desejar na cidade?
Em Caruaru, temos outra situação. Paulo Câmara tinha aliados políticos muito fortes em Caruaru, mas a prefeita Raquel Lyra fez oposição a Paulo Câmara, apoiando Armando Monteiro. Raquel tem deixado muito claro a falta de apoio do governo estadual. Diria que a vitória de Armando Monteiro em Caruaru deve ser creditada ao papel político que a prefeita realizou na cidade. Caruaru mostrou a Paulo Câmara que ele precisa ter maior atenção com a cidade, pois a derrota dele em Caruaru é reflexo da falta de diálogo entre a cidade e o Estado.
Em Caruaru, a prefeita Raquel Lyra apoiou Armando Monteiro que venceu na cidade, mesmo Armando tendo perdido no Estado. Isso foi positivo para ela?
A vitória de Armando Monteiro em Caruaru foi extremamente importante para Raquel Lyra, porque demonstra que ela consegue angariar votos, visto que o discurso dela foi mostrando a falta de apoio do governo, o que tem dificultado a elaboração de projetos que foram inviabilizados pela falta de apoio dela do governo. Também se deve creditar por todo trabalho que a prefeita fez, conversando com empresários, profissionais liberais e educadores. Isso Aprofunda as divergências entre ela e o governos, mas, por outro lado, mostra a força política que ela tem do ponto de vista local.
Existe um isolamento político da prefeita de Caruaru? Já que grandes figuras políticas da cidade, como José Queiroz vem criticando a gestão e o deputado eleito Tony Gel apoiou Paulo Câmara nessas eleições.
Não considero um isolamento político. Raquel Lyra está fazendo uma administração que vem sendo reconhecida na cidade. Por exemplo, na área de desenvolvimento social e direitos humanos, nas políticas para mulheres e, principalmente, na área de educação com mudanças importantes. É claro que a eleição de 2020 vai ser bastante acirrada. Teremos o grupo de Tony Gel, o grupo do deputado Wolney Queiroz (filho de José Queiroz) e o Delegado Lessa. A prefeita terá que estabelecer outras relações com um apoio mais direto com a comunidade. Ao mesmo tempo, o governador Paulo Câmara não tem interesse em vêr o seu grupo de apoiadores divididos. Lessa, José Queiroz e Tony Gel apoiam Paulo Câmara. Raquel está construindo uma identidade própria. As relações políticas não são estruturais, mas conjunturais e, naturalmente, vai surgir outras oportunidades de relações.
Essas eleições ficaram marcadas pelo grande discurso de ódio. Quais os fatores que propiciaram esse acirramento?
O discurso de ódio vem crescendo muito no Brasil. Essas eleições ficaram marcadas pelo crescimento da intolerância, com uma comunicação muito violenta. A pauta política de Bolsonaro é violenta com a defesa das armas e tortura, o que rememorou momentos difíceis para quem foi da esquerda brasileira – o trauma da ditadura militar, a perseguição.
Já foi vítima de discursos de ódio?
Eu recebi ameaças. Há um ano atrás, eu recebi agressão nas redes sociais me caluniando publicamente com palavras que não tenho coragem de falar agora. Tive que cancelar o messenger, por exemplo, excluir e bloquear pessoas das redes sociais. Esse acirramento de ódio começa pelos ataques pessoais e pode terminar em coisas mais graves, como a violência física. Depois dessas eleições, o Brasil não será o mesmo, um País marcado por vários tipos de ódio: o de pensar diferente, o ódio pela aceitação. Vimos muitos preconceitos contra mulheres, negros, LGBT’s, quilombolas… Vamos ter de reconstruir Brasil, repensar os valores democráticos. Resta torcer para que o presidente reveja esse discurso de ódio e que não os ponha em prática.
