A versatilidade de Jackson Freire: um artista do interior.

Uma conversa sobre arte, política e sobrevivência financeira.

POR VICTÓRIA MELO

Com apenas 19 anos, Jackson Freire já possui um extenso currículo artístico. Multi-artista, ele atua, dança, canta, dirige, escreve e produz. Escreveu e dirige o espetáculo “Os Três Porquinhos”, uma releitura do clássico da literatura infantil, que estreou nacionalmente no Festival Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Participa da Trupe Veja Bem Meu bem, onde atua no espetáculo “Nordestinados por um Pássaro”. Dirige “Os Três Porquinhos” e executa a iluminação de “O Poeta Preto”. No Teatro Experimental de Arte (TEA), atua nos espetáculos “Auto da Compadecida” e “Jogos na Hora da Sesta”. Já viajou bastante com o teatro e hoje vive dele. Sempre em busca de cursos e oficinas que possam lhe acrescentar mais conhecimento, ele falou um pouco sobre as dificuldades de viver da arte em uma conversa também com tom político.

A sua “principal” arte é o teatro, como ele surgiu na sua vida?

Eu comecei a fazer teatro aos 11 anos, por meio de um projeto social no colégio Municipal com Nildo Garbo, o famoso Greta, que é um diretor daqui de Caruaru muito conhecido. Como o colégio era ao lado do Teatro João Lyra Filho, eu entrei para o curso de teatro de lá. Depois que eu comecei a fazer teatro no João Lyra, aconteceu o Festival de Teatro do Agreste (FETEAG), que eu tinha muita vontade de participar porque eu achava o máximo um festival de estudantes, mas nunca tinha a oportunidade. No meu último ano do ensino fundamental, a gente fez no colégio um espetáculo de encerramento e levou para o festival. Nessa época, já não tinha professor de teatro, a gente continuou o grupo de forma bem independente sabe? Por que a gente tinha vontade de fazer. Fizemos uma loucura, fomos numa casa de festa e, na conversa, conseguimos uma maleta cheia de maquiagem, maquiagem boa, que a dona da loja nos deu. No dia da apresentação, Arary Marrocos, que é uma das fundadoras do Teatro Experimental de Arte (TEA), assistiu ao espetáculo e me convidou para o TEA. Depois disso, eu montei um espetáculo no colégio onde eu estudava no ensino médio, e participei do FETEAG como diretor. Quando terminei o ensino médio, comecei a ensinar em escolas e entrei pelo programa Mais Educação. Depois, ensinei em colégio particular e em seguida, entrei na Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, onde estou até hoje, dando aula em Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), ensinando teatro.

Quando você percebeu que gostaria de tornar a arte a sua profissão?

Na verdade, em questão de profissão eu sempre fui muito decidido. Eu nunca tive uma dificuldade em dizer que era aquilo o que eu queria. Então, desde que eu comecei a fazer teatro, eu me entendia que ia viver disso, que ia lutar e que não seria fácil. Eu logo vi que era aquilo o que eu queria, mas eu fui com uma ilusão de que eu ia começar e, na outra semana, eu estaria na Globo fazendo Malhação. É uma ilusão que boa parte cria e quando eu vi que não era realmente isso, comecei a gostar realmente de teatro.

d780e5e0-9171-4854-918c-31fc80d3b4da
Jackson posa em frente ao banner do espetáculo “Os três porquinhos”, de sua autoria e direção.

Jackson posa em frente ao banner do espetáculo “Os três porquinhos”, de sua autoria e direção.

Além do seu trabalho como ator, você também ensina. Qual a importância do teatro na escola?

Eu acho que o teatro na escola tem que ser obrigatório mesmo. Todo ser humano deveria passar pelo teatro, porque uma oficina de teatro não é só pra quem quer ser ator ou atriz. O teatro ensina você a enxergar o mundo de outra forma, a se libertar de muitas amarras construídas socialmente, muitos preconceitos. A gente se despe de muita coisa para poder encarar vários personagens. Isso necessita de todo um processo de auto aceitação, de saber quem é você e qual o seu papel na sociedade. Eu acho fundamental que tenha teatro na escola. Quem desenvolve esse tipo de trabalho, tem todo o meu respeito por que não é fácil ensinar teatro no país em que a gente vive e na escola principalmente.

Como é a receptividade dos alunos?

Eles amam, porque teatro é uma grande brincadeira. É uma brincadeira mais séria quando a gente leva pra vida, como profissão, mas, sim, eles gostam bastante. O teatro na escola e no CRAS, para a criança, também é um teatro diferenciado, não é o teatro que a gente ensina para uma pessoa de 20 e 30 anos. A gente traz toda uma ludicidade, principalmente os meus alunos que são crianças em situação de risco, que têm uma vida realmente sofrida, passam dificuldade e precisam trabalhar desde muito cedo para ajudar o pai e a mãe. O teatro entra nesse resgate da ludicidade. Nesse voltar a ser criança. Nesse momento deles poderem brincar à vontade, algo que eles não têm no dia a dia.

Quais as dificuldades de ser um artista no interior de Pernambuco?

Todas. Acho que não só no interior de Pernambuco, mas no País inteiro. É muito difícil você ser artista porque ainda não é valorizado como uma profissão. É difícil porque a gente não tem muita oportunidade de ter oficina ou patrocínio. As pessoas não entendem que fazer teatro gasta bastante com cenário, maquiagem, figurino, luz, transporte, etc. É toda uma logística e a gente não tem apoio governamental, nem de empresas privadas. Por não considerarem uma profissão, as pessoas encaram muito o teatro como hobbie. É difícil, mas você tem que resistir. Se é isso que você gosta, tem que dar a cara a bater mesmo, levantar a poeira e encarar. É bem melhor a gente ganhar pouco e passar a vida fazendo o que gosta a passar o dia inteiro numa sala com uma gravata apertando, espirrando por causa do ar condicionado só pelo ganhar dinheiro.

A arte é sua única fonte de renda? Você enfrenta dificuldades por isso?

 Sim. Na verdade, a minha fonte de renda na arte é a educação. Eu ganho como professor. Como ator eu ganho também, mas é muito periodicamente, não é sempre que aparece trabalho, não é sempre que a gente consegue uma pauta. Rola um dinheiro? Rola sim, mas é muito difícil, é muito pontuado. Por isso, eu ganho mais como professor por ser algo fixo.

 O que o teatro significa para você?

 Hoje em dia tudo, porque sem o teatro eu não ia ter nem o que comer. E eu realmente não sei o que eu ia fazer se não fosse teatro.

ecebae17-e13f-481a-b872-bb033fc1d967
Jackson interpreta o personagem Alonso, no espetáculo Jogos na Hora da Sesta.

 Além do teatro, em quais outros âmbitos artísticos você se insere?

 Eu gosto de tudo. Sempre digo que eu ligo o teatro a tudo. A gente está aqui conversando, a gente está fazendo teatro porque teatro é isso: é troca de energia, é você sentir o outro. Eu danço também. Entrei há pouco tempo nesse mundo da dança e estou apaixonado. Não sou bailarino, sou um ator que realmente é enxerido e que tem que ser muito flexível. Se o ator interpreta um personagem que tem habilidade com dança, ele tem que estar pronto.  Eu vejo muito o trabalho de ator como um trabalho de preparação constante e eterna. Eu não costumo me preparar apenas para fazer aquele trabalho. Eu acho que você precisa estar já inserido em toda uma rotina. Fiz aula de dança, hoje em dia faço balé clássico e balé contemporâneo. É lindo a forma como você se expressar com o corpo. Canto também, eu tento (risos). Estou com um projeto de música, inclusive, que vai vir esse final de ano em dezembro. Tocar eu não toco, mas “arranho”, tiro um sonzinho. Mas é isso mesmo, a necessidade de o ator estar sempre pronto. Ele precisa cantar, precisa dançar, precisa saber costurar uma roupa, precisa saber fazer sua própria maquiagem, principalmente no interior, onde a gente não tem esse luxo de “ah, eu tenho camareira, tenho cenógrafo, tenho cenotécnico, tenho iluminador, operador de luz e som”.

 Qual a importância de ser um artista versátil? De múltiplas habilidades.

 É importante para o artista ser plural. Ele precisa abraçar muito essa questão, pois no teatro são várias vidas que vivemos em uma só. Se eu canto, danço ou toco, isso é uma oportunidade a mais de me chamarem para um trabalho. Quando você já vai com uma bagagem, ajuda o diretor no trabalho dele, estando ali pronto para viver algo, viver alguém.

 Em quais grupos você participa ativamente no momento?

Eu faço parte do TEA, que é um grupo que resiste há bastante tempo aqui em Caruaru. Faço parte da Trupe Veja Bem Meu Bem, que nasceu desse desejo de respirar mais arte. No TEA, a gente se encontrava muito em fim de semana, mas sentíamos a necessidade de estudar mais durante a semana. Sou também bailarino do estúdio Sinara Kataline.

 Como artista, qual a importância de se posicionar politicamente?

Temos que nos posicionar por que estamos na frente. Artista também é formador de opinião. Se a gente que está na frente e tem visibilidade, não fala, ninguém vai falar e tudo vai continuar do jeito que está. Temos que falar mesmo e dar a cara a tapa.

 No nosso atual cenário político, como você vê a arte inserida?

 Eu vejo a arte hoje em dia como uma resistência. A gente vive um momento de muito ódio e eu acho que a arte está aí para dar aquele suspiro. Para a gente chegar em casa, poder escutar uma música e relaxar, poder assistir a uma novela, um filme e descansar. A arte está aí para dar essa pausa, esse suspiro que a gente precisa. Ela é a maior arma do artista e nós podemos cada vez mais usá-la como forma de militância, pois o artista é um ser político. Muita gente não tem voz e o artista que tem público, tem o dever de se posicionar politicamente e mostrar que com muito amor e respeito a gente consegue mudar.

 Arte é política?

Arte é política. Arte é tudo. É essencial à vida. Dá sentido à existência. Ela está na troca de olhar. Está no bom dia que a gente dá para o motorista. Está na gente se olhar no espelho e sentir. Arte é sentir, é respirar. Ela está em todo lugar e, se você olhar com outros olhos, vai encontrar. Arte é resistência.

 Gostaria de fazer considerações finais?

Vão ao teatro, consumam teatro e apoiem os seus amigos artistas, valorizem! Não desistam! Se você tem um objetivo, vá atrás, não dê bobeira e, se não tem oportunidade, crie suas oportunidades. O limite da gente é só o céu.

Deixe um comentário