A Vocação em Empreender

Mulher de origem pobre, Graciara das Neves é proprietária do melhor colégio de Lajedo, no Agreste de Pernambuco

POR GABRIEL PEDROZA

Graciara das Neves Laureano, 41 anos, é mãe de dois filhos e natural de Lajedo, município do Agreste de Pernambuco. É graduada em Pedagogia e pós-graduada em Supervisão e Gestão Escolar, ambos pela Universidade de Pernambuco, e fundadora e atual gestora do Colégio Cinder, criado originalmente com o nome de Escola Cinderela, há 27 anos, quando ela ainda era estudante do magistério. Começou com nove alunos matriculados em uma garagem e hoje conta com aproximadamente mil. Graciara é empreendedora em uma sociedade que não valoriza a mulher no mercado de trabalho e sua história, como se perceberá ao longo desta entrevista concedida ao repórter Gabriel Pedroza, exprime bem isso.

Como surgiu a ideia de criar a escola?

Hoje em dia as pessoas não acreditam muito em vocação, mas eu acredito que a ideia de criar a escola foi pura vocação. Eu não era professora e não vinha de realidade educacional, pois na época eu era muito nova, uma estudante ainda. No meu caso, eu sempre me identifiquei com questão de escola, com tudo: evento, ensino, relações interpessoais, a dinâmica. A ideia partiu daquilo que eu gostava e eu achava que ia fazer bem feito, porque eu fui construindo meu ser profissional a partir das experiências que eu ia vivendo. Quando eu comecei, eu era estudante do antigo magistério e escolhi essa área porque sabia que eu tinha vocação, mas foi só depois que cursei Pedagogia, curso que era muito disputado na época. Veio a inspiração e fui aprendendo com o tempo.

 Como foi para a senhora, enquanto mulher e em uma sociedade que não valoriza a mulher no mercado de trabalho, criar e gerir esse negócio nos últimos 27 anos?

 Hoje em dia se fala muito em empoderamento feminino e na época não se ouvia falar disso. A mulher, para colocar um negócio e continuar com ele sem uma figura masculina, era algo atípico. As coisas foram acontecendo. Eu não coloquei escola pensando que viraria um negócio, coloquei porque um jovem sente a necessidade de ter sua independência e ter seu próprio dinheiro. Eu não sabia que ia tomar essa dimensão. Como eu vinha de uma família pobre, eu precisava fazer algo por mim e por eles. Quando a escola vai tomar a proporção de empresa foi no ano de 1997 e daí eu fui vendo que eu precisava ter uma visão não só de professora, mas de empresária. Na questão de ser mulher, é mais difícil ainda, mas meu ramo de atividade também contribui.

Houve dificuldades que a fizeram pensar em desistir?

 Em alguns momentos da minha história, enquanto criança, como a minha relação afetiva com a minha mãe era um pouco difícil, por conta desse nascimento que veio em uma hora que causou a desunião dos pais, mãe mesmo já me disse que ela tomou vários remédios para abortar. Então, eu sou fruto de um aborto que não deu certo. Minha história já é de luta. Eu sou aquela pessoa que, quando quer algo, eu foco. No início da escola, foi dificuldade sempre. Eu comecei em uma garagem com estrutura precária. Quando foi pra comprar o terreno onde é hoje, eu comprei um onde a escola se expandiu e eu não tinha o dinheiro, mas eu tinha um sonho. Quando foi pra fazer também vieram dificuldades, assim como na hora de registrar a escola. Eu ia pra Recife, pegando carro, com o almoço em uma bolsa de mercado, porque não tinha dinheiro pra almoçar em restaurante, levando a documentação. Como eu não era expert na área, a documentação voltava e eu tive que aprender errando. As dificuldades foram próprias do caminho de quem quer fazer alguma coisa sem recurso.

 Sofreu preconceito por ser mulher e estar a frente de um negócio como esse?

 Sim, mulher e pobre. As pessoas não acreditam de cara em você. Essa questão machista está impregnada na cultura das pessoas, como se o homem tivesse mias capacidade cognitiva, quando na verdade não é. Isso é uma coisa que a mulher brasileira lida todos os dias, na questão de mostrar que tem competência para estar, por ser mulher. Hoje eu digo que tiro mais de letra, pois essa dificuldade você não lida com agentes fora e sim perto de você. No casamento e até em serviços que contrata para escola, porque é uma mulher. A questão de data, de mostrar que você gosta do que é certo, colocar tudo em contrato. Entre a empresa de uma mulher e a empresa gerida por um homem, às vezes quem está prestando serviço primeiro quer terminar tudo com o homem, com o medo de não fazer e ter problema, quando o pensamento com a mulher é que não terá nada disso. Uma coisa que tenho aprendido com o tempo é formalizar as coisas, pois já que existe essa realidade social do desfavorecimento da figura feminina, a gente precisa se precaver e procurar formas e não ter problema. Mas que existe, existe.

Na sua opinião, a visão da sociedade, diante de uma mulher que decide empreender e o empreendimento tem êxito, mudou desde a fundação do colégio ou continua a mesma?

 Quando você prova que você é capaz, as pessoas vão lhe respeitar, quando você mostra ao que veio. Mas nesse respeito social em relação à mulher, ela tem que provar que é capaz e provar essa competência. A mulher que gere um negócio que não tem nada a ver com a vida particular dela, se ela cometer algo em sua vida privada, a sociedade associa o erro dela à atividade que ela exerce, o que uma coisa não tem a ver com a outra. Eu acho que toda mulher, independentemente de preconceito social, ela chega aonde ela quiser chegar se ela tiver foco. A mulher precisa superar esse preconceito, ela com ela mesma, porque, como ela não foi criada pra ser liderança, ela não chega, muitas vezes, por não se achar digna de chegar.

Imaginou que chegaria aonde chegou?

 Não, não foi planejado. Não dava pra almejar. Hoje se olharmos, mesmo sendo uma escola de interior, o Colégio Cinder tomou uma dimensão muito grande. A gente tem uma repercussão muito positiva, não apenas em Lajedo, como na região. Se você pegar os últimos resultados do Enem do colégio e comparar com as escolas de maior porte em Garanhuns, é muito semelhante. Eu não dimensionei porque a estrutura que eu comecei era muito pequena. Não teve a questão do marketing, de investir em publicidade, para que tomasse a dimensão, foi tomando de forma lenta. Foi realmente a qualidade do serviço e o comprometimento daquilo que era prestado. Ao longo do tempo, foi ganhando credibilidade e foi chegando aonde está hoje. Agora dá pra traçar uma linha para eu saber mais ou menos aonde vou chegar. Na minha experiência de vida, não tem como não dizer que a fé alcança milagres.

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Colégio Cinder, hoje, configurado como o melhor da cidade de Lajedo. Foto: Gabriel Pedroza

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