Brasileiro criado em Caruaru leva na bagagem 196 sonhos: “O maior segredo é não desistir”

Anderson Dias se desfez de todo o patrimônio, deixou Pernambuco e pretende entrar para o Guiness Book como o humano mais rápido a dar a volta ao mundo  

POR AMANDA OLIVEIRA

Anderson Dias tem 24 anos e já visitou 75 dos 196 países que pretende conhecer. Nascido na Bahia, foi criado em Caruaru, Pernambuco, e viveu em Recife nos últimos anos antes de embarcar no projeto intitulado @196sonhos. Anderson iniciou sua viagem no dia 27 de maio e pretende retornar o mais breve possível, pois busca entrar para o Guiness Book, o livro dos recordes, como o humano mais rápido a dar a volta ao planeta. Vindo de origem humilde, Anderson fala sobre a importância de nunca desistir dos seus sonhos e de sempre pensar alto. O que poucos sabem é que o seu projeto vai muito além de apenas conhecer outros países. Anderson está produzindo um documentário no qual apresentará 196 pessoas, um de cada país que conheceu, contando no idioma nativo qual é o seu maior sonho.

 Como era sua vida antes do projeto 196 sonhos?

Lembro como se fosse hoje do momento mais difícil da minha vida. Eu tinha 21 anos e morava em uma comunidade no Pina, Recife, em um lugar que media aproximadamente 5m2. Estava deitado em um colchão inflável furado, com o ventilador sempre no nível três em cima de mim, jogando um vento quente. O suor pingando. Foi quando tive uma ideia: “Vou juntar R$ 30 mil em três meses e farei um intercâmbio”.

E como você colocou em prática a vontade de fazer um intercâmbio?

Entrei no AliExpress e vi que a febre do momento era capinhas de celular. No outro dia, fui ao centro da cidade e comprei capinhas e self sticks (o famoso “pau de selfie”). Peguei um ônibus e fui vender no Shopping Rio Mar, que fica no bairro do Pina. No mesmo dia, voltei para casa com R$ 500 reais no bolso. Três meses depois estava pousando em solo europeu.

O que levou você a ter esse sonho de dar a volta no planeta?

Com tudo isso que aconteceu na minha vida, decidi que era hora de fazer algo que impactasse e motivasse as pessoas. Como sou apaixonado por viajar, decidi fazer esse projeto. Meu maior sonho não é só visitar todos os países do mundo. É visitar todos os países do mundo inspirando pessoas por onde passar!

Qual foi a reação das pessoas quando você resolveu se desfazer de todo o seu patrimônio para investir na viagem?

As pessoas me chamaram de louco. Disseram que eu não ia conseguir, não ia valer a pena e que eu não tinha nada na cabeça.

Desde o início você tem como meta entrar para o Guiness Book?

Sim, já planejei a viagem com essa meta.

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Foto: Instagram / @196sonhos

Conhecer o mundo de forma tão intensa acaba te deixando menos encantado pelo Brasil?

Pelo contrário, a cada país que conheço tenho mais certeza de que o Brasil é o melhor. Fico ainda mais encantado com o Brasil e com o nosso povo. Não vejo a hora de voltar para o melhor lugar do mundo.

Dos lugares visitados até agora, qual foi o seu preferido e aquele que você menos gostou? 

Até agora, o preferido foi a Ucrânia. Além de barato, as pessoas são muito gentis. Fui muito bem recebido. Quase não tem brasileiro lá, então foi bem bacana a experiência, bem diferente. Já o que menos gostei foi Trindade e Tobago, onde sofri preconceito e xenofobia. Trataram-me mal. Foi bem complicado.

O @196sonhos é um grande incentivador de pessoas que desejam ganhar o mundo, mas acham que é algo impossível de ser alcançado. Qual é o segredo para conquistar esse sonho?

O maior segredo é não desistir. Eu passo por muitas provas de resistência: saudade, frio, a comida que não é igual à do Brasil. As pessoas e as culturas são muito diferentes. Às vezes, bate muita saudade do Brasil. Passei por risco de morte, já fui assaltado. Atravessei uma fronteira em que o país estava em guerra civil. Já tive vários motivos para desistir, mas não desisti. Acho que o maior segredo é este: não desistir do seu objetivo. Colocá-lo como prioridade e não ver mais nada.

Você acha que as pessoas têm medo de colocar em prática seu objetivo?

Acho que muitas pessoas têm um sonho, mas têm medo de arriscar. Têm medo do que pode acontecer com elas. Têm medo do diferente. Às vezes, o diferente não é ruim, é só diferente. É só algo que ela não sabe o que é ainda e, por isso, tem medo. O nosso cérebro tem essa barreira. Então, a partir do momento em que a gente consegue virar a chave e encarar esse medo, que nem é necessário, pois a gente não sabe nem o que é ainda, conseguimos conquistar mais coisas. Chegar mais longe. Essa é a ideia que eu quero deixar.

O nome do perfil dará origem ao documentário “196 sonhos”, no qual você trará o relato de 196 pessoas, cada uma de um país diferente, falando sobre os seus próprios sonhos. De onde surgiu a ideia de documentar sonhos?

Quero entender como funciona a cabeça das pessoas. Se o ser humano, de um modo geral, é igual, se tem os mesmos anseios, os mesmos sonhos. Quero entender isso. E hoje estou vendo que é. Em qualquer lugar do mundo são os mesmos sonhos, as mesmas ambições e os mesmos medos.

Pretende fazer algum trabalho similar ao retornar para o Brasil?

Em relação a voltar para o Brasil, quero visitar os 26 estados mais o Distrito Federal. Fazer algo parecido no Brasil, mas diferente. Quero voltar e ajudar nosso povo. O Brasil tem, para mim, o povo mais talentoso do mundo. Tem várias pessoas com dons maravilhosos, mas o brasileiro tem um problema: não acredita nele mesmo, não acredita que é capaz. Tem esse “vitimismo” de dizer “nasci pobre, tenho que morrer pobre”. É o ciclo da pobreza: minha mãe nasceu pobre, meu pai nasceu pobre.

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Foto: Instagram / @196sonhos

Como exatamente você pretende ajudar outros brasileiros a realizarem seus sonhos?

Às vezes as pessoas são muito acomodadas. A ideia é fazer as pessoas saírem da zona de conforto e buscar a mudança e o que realmente querem. Quero voltar para o Brasil e fazer um trabalho forte nisso. Fazer as pessoas desenvolverem o dom que elas têm. Auxiliar para que realmente acreditem em si.

Sua viagem foi patrocinada por alguém ou você levantou todos os recursos por conta própria?

Quem me acompanha desde o começo sabe que não estou fazendo essa viagem por dinheiro, estou fazendo por amor mesmo. Surgiu a oportunidade de um patrocinador pagar toda a viagem e eu não quis, pois acho que perderia o total sentido da viagem. Seria mais um “playboyzinho” a cair no mundo – sem julgamentos, claro – mas a mensagem que quero passar para as pessoas é muito maior do que apenas viajar. Claro que viajar é muito bom, quero fazer as pessoas viajarem mais, mas é muito maior do que isso. As pessoas estão começando a enxergar o tamanho do projeto agora, então espero que possa ter uma proporção maior, uma visibilidade maior.

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