Bolsonaro e o discurso religioso

Por que a maioria dos eleitores cristãos o apoiam?  

POR MATHEUS TAVARES

No dia 28 de outubro, ocorre o segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Segundo a última pesquisa lançada pelo Ibope em relação aos votos válidos, o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, está com 54% das intenções de voto contra 46% do seu adversário Fernando Haddad do PT. Desde a sua campanha, Bolsonaro tem levantado multidões de apoiadores em todo o território nacional e conquistado muitos adeptos da religião cristã, principalmente evangélica. Ainda com base em pesquisas feitas pelo Ibope, Bolsonaro lidera com 58% das intenções de voto no público evangélico e Haddad com 31%. Vamos entender um pouco como esse fenômeno ocorre e os principais aspectos que consolidam a preferência por um determinado candidato.  Nesta entrevista, iremos conversar com Heitor Lamartine, mestrando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande; especialista em História Social e Contemporânea pela Universidade Cândido Mendes; graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru. Atualmente, desenvolve pesquisa na linha de Sociologia das Religiões com ênfase em Protestantismo Histórico e Pentecostalismo.

– Para compreendermos um pouco, como você enxerga esse cenário de segundo turno?

  O segundo turno está sendo caracterizado por uma acentuação da polarização entre esquerda e direita. Esse quadro deixa a situação mais acirrada, pois existem projetos de governo diametralmente diferentes, como, por exemplo, avalio os projetos do PT como representantes de um estado de bem-estar social. Por outro lado, vejo os projetos de Bolsonaro, uma tendência para uma política econômica neoliberal e de uma modernização conservadora do capitalismo brasileiro. Também vejo as propostas do PT mais voltadas para as minorias, mulheres e LGBTs. Enquanto isso, as propostas de Bolsonaro visam a posições claramente antagônicas. Paralelamente, vemos ações extremadas de alguns eleitores que partem para agressões verbais e físicas, que aprofundam ainda mais a polarização de que falei.

– Ao longo das campanhas presidenciais, vimos uma forte onda pró-Bolsonaro por grande parte dos evangélicos, como você analisa este fenômeno?

 Primeiramente, vejo a simpatia de fiéis evangélicos por Bolsonaro justamente por uma dinâmica político-partidária baseados numa corrente antipetista. A partir de então, Bolsonaro atrai o público evangélico com um discurso que defende a moral e os bons costumes, sendo estes inseridos na sua pauta de governo. Ele se mostra como defensor da família, que é um ideal de sociedade conservadora muito prezado pelos evangélicos, tendo como referência a cultura cristã como exemplo de um alto padrão ético e moral. O eleitorado cristão diz estar interessado em livrar o País do “comunismo” que está impregnado na visão histórica das experiências vivenciadas por outras nações onde o regime adotou o ateísmo como religião oficial. Desse modo, os ideais evangélicos passam a ser “encarnados” em uma pessoa.

 

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Participação no XVI encontro de ensino, pesquisa e extensão da FAFICA                Foto: Arquivo pessoal

– Como essa onda pró Bolsonaro atua?

 O contexto que vivemos atualmente no Brasil manifesta um cenário de crises institucionais. Assim, a onda de apoio ao candidato Jair Bolsonaro é bastante singular. Sua ascensão não passou pelo crivo das grandes mídias. As redes virtuais foram imprescindíveis para a mobilização dessa onda através de mensagens curtas e ideias prontas. Essa onda se alastrou por toda a sociedade, pois, diante da crise institucional, a sociedade sente a necessidade de uma figura política forte que represente a honestidade, a moralidade, entre outros atributos. Venho acompanhando a campanha de Bolsonaro na internet desde meados de 2012. Ninguém imaginava que essa figura com ideias tão “exóticas” pudesse ter tanto apoio popular. Nesse sentido, vejo que as redes virtuais, tornaram-se poderosos veículos que mobilizaram os eleitores pró-Bolsonaro. Prova disso é que o candidato nem se preocupou com a presença nos debates. Diante de um cenário de incertezas com propostas curtas, e e utilizando-se do discurso cristão, ele pôde ser visto como alguém que “represente a verdade” e que livre o País das crises institucionais com a bandeira cristã, mais especificamente a evangélica.

– O candidato do PSL também se apresenta como um sionista, qual efeito isso traz entre os protestantes?

 Bolsonaro conseguiu mobilizar o discurso que envolve uma concepção cristã não apenas na questão moral, como também a citação de textos Bíblicos e da expressão militar “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Cada vez que ele cita em entrevistas “Deus me deu uma missão” ou age com uma postura próxima da cosmovisão cristã, isso gera um grande impacto no meio evangélico. O interesse em defender a bandeira de Israel está inteiramente baseado em uma promessa Bíblica que Deus fez a Abraão, o patriarca dos Hebreus: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3). Esse discurso de uma conotação fortemente cristã fez toda a diferença. O próprio nome do candidato, “Messias”, remete à ideia de um escolhido, salvador da pátria, um redentor levantado por Deus, agregando atributos significativos no imaginário evangélico. Jair Bolsonaro é uma “invenção discursiva”, não apenas visto como um candidato com interesses cristãos, mas alguém que representa o herói libertador e isso é preocupante. Visto como um mito político, suas proposições ideológicas são legitimadas por essa trama discursiva cristã. Além disso, observo que existe também uma mobilização de figuras importantes no meio evangélico, como Silas Malafaia e Edir Macedo que declaram apoio político. Dentro do discurso de Bolsonaro e sua imagem, lembro do que Foucault já dizia: “Discurso é poder”. E afirmo: É um poder tão forte, que é capaz de eleger alguém como presidente da República.

 – Então, podemos concluir que o discurso de Bolsonaro está mais baseado em um jogo de identidades?

 Quando Bolsonaro transmite um ideal cristão, ele alcança neopentecostais, pentecostais, protestantes históricos, católicos ortodoxos e romanos, anglicanos e até mesmo categorias que são estranhas ao cristianismo como a maçonaria. Partindo dessa análise, a sociedade passa também por um fenômeno de crises identitárias e que precisam se apoiar psicologicamente com discursos de verdades absolutas e certezas que são proferidos pelos cristãos. Bolsonaro conseguiu se apropriar desses discursos, atraindo esse público diversificado, unificando as demandas e identidades religiosas sintetizadas na defesa da família, da moralidade, e dos bons costumes. Em um cenário de incertezas, o discurso de uma verdade absoluta e, mais especificamente, cristã, faz com que as comunidades evangélicas se sintam mais seguras e representadas politicamente por esse candidato.

 

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