Mestre do artesanato Lula Vassoureiro falou sobre a jornada até se tornar Patrimônio Vivo de Pernambuco e suas máscaras carnavalescas
POR THIAGO LIRA
Amaro Arnaldo do Nascimento, nascido em 02 de Novembro de 1944, em Bezerros, é conhecido por Lula Vassoureiro, sobrenome herdado da profissão do pai, Zé Vassoureiro, que fazia vassouras e itens de palha de coco. Também pegou do pai a alegria por artesanato e pelo Carnaval, que até hoje mantém o tradicional Bloco Bacalhau na Vara, montado por seu pai. Começou a se interessar em fazer máscaras de papel maché desde criança, porém seu pai não o apoiou, ele acabou fugindo de casa para trabalhar no circo e só voltou aos 13 anos. A persistência na confecção de máscaras carnavalescas, agora sem a proibição do pai, transformou Lula Vassoureiro em um dos maiores artesãos de Pernambuco, sendo considerado em 2009, Patrimônio Vivo de Pernambuco. Às vésperas de uma cirurgia para retirada de quatro pedras na vesícula, Lula falou sobre sua vida e contribuição na cultura de máscaras que ultrapassam o Carnaval e que chegaram até o outro lado do mundo.
Quando surgiu a vontade de criar suas máscaras?
Meu pai não quis que eu estudasse. Até os seis anos, eu pedia e ele ficava bravo, uma vez até me bateu por conta disto. Então, saí de casa e fiquei com o circo por alguns anos. Saí de lá palhaço, baterista. Mas aí percebi que aquilo não era suficiente para o sustento de três irmãos e minha mãe, que cuidava da casa. Trabalhei em alguns lugares, mas com o pensamento na minha profissão que aprendi com meu pai. Mas ele não me deixava sequer pegar em uma de suas formas. Eu seria ridículo de dizer que achei a morte do meu pai algo bom, mas facilitou pra que trabalhasse com as formas dele.
E como isso se desenvolveu?
Aos oito anos, eu já saia de máscara no Carnaval. As pessoas também pediam para que fizesse as máscaras para os “mascarados”, termo que logo mudou para Papangú por conta de um conto folclórico. Então, gostei e acabei ultrapassando meu pai na arte. Continuei trabalhando, pois o Carnaval só veio melhorar de 85 para cá. Aí, eu já tinha me aperfeiçoado e até já tinha dado oficinas em vários estados. Fazia máscaras para o Carnaval de Bezerros e cheguei ao ponto de ser reconhecido do outro lado do mundo, já fui a nove países, como Estados Unidos, Itália e França.
Como foi viajar para outros países mostrando o seu trabalho?
Isso aconteceu graças ao querido, hoje falecido, governador Eduardo Campos. Ele me tornou Patrimônio Vivo de Pernambuco e isso aumentou minha credibilidade de trabalho. Apesar de não ter ido à escola, sou da Academia de Letras Artes e Ofícios Municipais de Pernambuco, (ALAOMPE) e também sou chamado de mestre porque foi um apelido dado pelo ex-prefeito Lucas Cardoso.
De onde vem sua inspiração?
A inspiração, no início que eu ia para os bares, vinha das pessoas, de ‘cabras’ muito feios pois era mais prático para fazer as máscaras. Depois, comecei trabalhar com caricatura e máscaras gigantes. O primeiro boneco gigante do Brasil fui eu quem fiz. Ela se chamava Igara. Tinha 1,80m de altura e era o nome de uma cachaça da época com uma moça no rótulo. Feito a pedido do dono da empresa da cachaça, em 1953.
Lembra da sua primeira máscara?
A primeira máscara vem da inspiração na lenda do “amigo da onça”, no qual o personagem tinha um nariz grande, que fazia brincadeiras com as pessoas. Ela hoje não existe mais, o tempo acabou danificando.
Qual a importância de suas obras para a cultura pernambucana?
No Brasil, onde você estiver e ver uma máscara, saiba que o artesão se inspirou no mestre Lula Vassoureiro. Já ensinei muita gente e até hoje ensino. Esta semana, comprei mais 100 cadeiras para dar oficinas para crianças e sou muito feliz com meu lado profissional. Já fui homenageado em Brasília pelo ex-presidente Lula e dei aulas de máscara para deputados federais e estaduais.

Como é dar oficina de máscaras para as crianças?
Sábado passado vieram 104 estudantes. Com isso, eu me sinto bem. Para mim, é como nascer naquele dia. Eles fazem uma máscara depois de uma aula. Escolas me contratam para ir dar aula de como fazer as peças. Sou instrutor e monitor em Recife. É uma obrigação do Patrimônio Vivo.
No Carnaval de Bezerros há o tradicional Bloco Bacalhau na Vara do Lula Vassoureiro, como funciona?
Este ano não pude ir porque estava doente, mas o bloco saiu. Durante a manhã, é feito o café da manhã do Bacalhau. Serve cerca de 500 pessoas. Depois, começa a organização para que às 20h o bloco ganhe as ruas da cidade. Há o Bacalhau do Batata em Olinda e o do Lula Vassoureiro em Bezerros. São 67 anos de tradição, pois meu pai já fazia o bloco antes de mim.
Até conhecer Eduardo Campos, eu tinha algumas dificuldades. Os outros governadores não davam tanta importância. Aqui, na cidade, quem me apoiou foi o ex-prefeito Marcone Borba. Depois que me tornei profissional, não encontrei tantos sacrifícios. Hoje sou aposentado. Tenho um bom salário por ser Patrimônio Vivo e Bezerros é a única cidade que tem dois representantes do Patrimônio Vivo de Pernambuco, que é J. Borges e eu. Tenho meus três filhos empregados e minha esposa que conseguiu se aposentar há três meses. Vivo muito feliz do que faço e acho que é por isso que estou completando 74 anos agora no dia dois de novembro.
Para encerrar, o senhor acredita que a cultura de máscaras e de Papangús no Carnaval de Bezerros esteja sumindo?
A internet veio para ficar, fazer e desmanchar. Hoje, eu vejo o comércio de máscaras muito fraco, até as máscaras gigantes para postes diminuiu. Alguns prefeitos usam as de anos anteriores, que muitas vezes estão danificadas. Muitas decorações são usadas só nos lugares da festa. É importante que não só os turistas vejam a ornamentação, mas o povo da cidade também.
