O estudante de Comunicação Social Gisomar Paulino fala sobre como tem enfrentado a luta que trava contra o câncer nos últimos meses e revela que a fé é o que lhe mantém otimista.
POR GÉSSICA AMORIM
Formado em Administração, pela Universidade Norte do Paraná (Unopar) e estudante do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco Centro Acadêmico do Agreste (UFPE/CAA), Gisomar Paulino, 39 anos, enfrenta um câncer no estômago desde maio deste ano. De uma forma muito descontraída e bastante otimista, o estudante, que segue o seu tratamento no Hospital de Câncer de Barretos e que, vez ou outra, posta nas redes sociais vídeos nos quais fala sobre os seus dias e a sua saúde, mostra-se confiante e espera que logo possa estar pronto para voltar à cidade e à rotina de trabalho e estudos. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) aponta que 1,2 milhão de novos casos da doença devem surgir no país entre 2018 e 2019. A estimativa, para este ano, é que surjam 582 mil casos – 300 mil em homens e 282 mil em mulheres. Gisomar faz parte dos 13.540 diagnósticos de câncer de estômago. Com 24 quilos a menos, ele acredita que é necessário se manter firme e confiante, para obter um resultado positivo, até o fim do tratamento. Em entrevista concedida à repórter Géssica Amorim, Gisomar Paulino fala sobre o diagnóstico, o tratamento, a família, o otimismo e a fé:
Você foi diagnosticado com um tumor no estômago. Como foi o dia em que você recebeu este diagnóstico?
O dia era 7 de junho deste ano. Foi um dia tranquilo. Eu estava com a minha irmã, Patrícia, no consultório do Dr. Valter Lira, em Caruaru, quando ele me informou que eu tinha, no estômago, um tumor maligno, que eu ia ter que fazer cirurgia, quimioterapia, radioterapia, de uma forma direta. Ele sentiu que eu estava preparado. E quando ele me disse que eu estava com câncer, a minha irmã, Patrícia, perguntou se tinha cura. Para mim, era como se me dissesse que eu estava com gripe. A minha preocupação era saber sobre as minhas atividades. Até então, eu estava afastado do trabalho, mas ainda estava indo à faculdade. Eu quis saber se poderia continuar a minha rotina. Eu saí do consultório às 14h, liguei para minha família, contei ao meu pai e aos meus irmãos sobre o diagnóstico. Às 15h, eu fui para a faculdade, conversei com alguns colegas, com a professora Fabiana Moraes e contei para toda a sala o que de fato estava acontecendo. Todo mundo estava preocupado, sem saber o que eu tinha e eu também. O diagnóstico, em si, não me abalou. Foi como saber que tinha outra doença qualquer. A minha preocupação sempre foi saber o que eu tinha. Depois disso, foi tranquilo, para mim, graças a Deus.
Qual era o estágio em que o tumor estava, quando você recebeu o diagnóstico?
Estava num estágio muito avançado, muito agressivo. Eu estava perdendo muito sangue. O médico disse que o meu corpo não percebeu o que estava acontecendo com ele.

Você não sentiu medo?
Ao saber que eu tinha câncer, eu não tive medo. É engraçado, porque a morte, ela nunca passou pela minha cabeça. Eu sempre disse: o tratamento pode ser feito em Caruaru, em Recife, aqui em Barretos, até no moinho da casa do meu avô, no Sítio Cajueiro II, em Sanharó. Em nenhum momento eu tive medo. Medo não é um sentimento que me acompanha. Eu sempre procurei enfrentar tudo na vida. Com o câncer, não foi diferente. Não me vi uma pessoa doente. Graças a Deus, eu sempre enfrentei de cabeça erguida. Também não sabia de onde vinha essa força, mas sabia que Deus estava comigo. Eu nunca pensei em ficar doente. Na realidade, o câncer me fortaleceu.
Com relação à faculdade, ao trabalho, à sua família, como tem sido estar longe de tudo isso?
Ficar longe da minha família, da faculdade e dos amigos foi meio complicado no sentido de que eu sabia que ia precisar me dedicar exclusivamente ao tratamento. Houve muitas vezes em que eu precisei buscar forças, porque eu via no olhar das pessoas a preocupação. Para elas, parecia mais difícil do que para mim. Meu amigo Gabriel, de Sanharó, me disse que nunca me viu fazer uma coisa só. Trabalhar e estudar, para mim, era tranquilo. É difícil ficar longe de tudo. Eu me lembro que a turma toda, que era a do primeiro período, se dispôs a me ajudar em qualquer coisa. Os professores também foram muito prestativos. Agora, eu preciso ficar bem e voltar bem. Este é o foco.
Você, através da ajuda de parentes e amigos, conseguiu fazer o seu tratamento num hospital que é referência em todo o Brasil no tratamento do câncer, que é o Hospital de Câncer de Barretos. Isso te deixou mais otimista? Como foram os dias em que você esteve lá? Como é estar próximo de pessoas que estão enfrentando o mesmo problema?
Olha, desde Caruaru, eu fui bem tratado. Mas aqui, em Barretos, eles são muito humanos. O tratamento é muito humano. Estar com essas pessoas, do meu lado, com o mesmo problema, me ajuda. Nessa caminhada, eu tive o apoio de pessoas que foram muito fortes: a minha amiga, Rita de Cássia, tinha leucemia. Ela tinha uma força muito grande, sempre estava conversando comigo, sempre me apoiando. Rita fazia um tratamento há três anos. Ela faleceu, o seu corpo não resistiu. Mas a sua força ficou comigo. Os protocolos de tratamento seguidos em Caruaru são os mesmos daqui. O tratamento se dá da mesma forma. Mas a questão, aqui, são os recursos. Há mais condições de fazer o tratamento sem que me falte nada.
Fisicamente, quais foram as sequelas que este tumor e o tratamento te deixaram?
Antes das sessões de quimioterapia, eu tive que fazer uma cirurgia, para retirar o tumor. Nisso, eu precisei retirar o estômago, o baço e parte do pâncreas. O câncer já tinha afetado estes outros órgãos, além do estômago. Eu costumo dizer, agora, que eu sou um carro ano 79, que falta algumas peças. Está faltando o estômago, o baço e parte do pâncreas.

Como é olhar para o Gisomar de antes e para Gisomar de agora (digo isso com relação a aspectos físicos e espirituais)?
Fisicamente, é olhar para uma pessoa que tinha 70 quilos e ver, agora, uma pessoa com 46, exatamente. Espiritualmente, eu estou muito bem. Eu sempre fui uma pessoa que teve muita fé. Acho que fui bem preparado para agora. Sigo com a cabeça e alma tranquilas e o coração aberto. Eu não sei se isso tudo é fé ou covardia de enfrentar o sofrimento.
Muita gente do curso de Comunicação, e principalmente a turma do segundo período, acompanha parte da tua rotina nas redes sociais e te veem bem otimista, alegre, sem transparecer o peso que deve ser lutar contra um câncer. O que te mantém assim, firme?
A fé, primeiramente. A minha família, os meus amigos e transparência da equipe médica, que me deixa seguro, não me escondendo nada do que me acontece.
O que você diria para as pessoas que estão passando por situações parecidas com a sua, agora?
Acreditar. Ter fé, acreditar em você mesmo. Acreditar que você precisa estar bem, que você tem sua força. Deus, para agir na sua vida, precisa que você permita. Eu sei que muitas vezes a gente está passando por dificuldade na vida e se pergunta sobre o porquê de acontecer com a gente. Mas tem que enfrentar de cabeça erguida, saber que você não vai ser o primeiro e não vai ser o último. Diria que tenham sede de viver, conversem com Deus abertamente, para que ele aja na sua vida.
