A poeta caruaruense Nay Harrison conta sobre suas inspirações e fala do papel da poesia diante do atual cenário político e social brasileiro.
POR SARAH COUTINHO
Poeta do Agreste Pernambucano, Naiara Márcia Lucena e Silva, nasceu em Belo Jardim e, aos 22 anos, já era reconhecida na cidade. Produz contos e crônicas presentes na literatura de cordel. Autora de três livros lançados em 2018 – Luz e Cena, Eu infinito da Existência e Nos incandescentes umbrais de caruaras – , Nay Harrison conversa com a repórter Sarah Coutinho sobre o papel da poesia na entrevista realizada na Estação Ferroviária de Caruaru. Após a tentativa de trabalhar como panfletista e empregada doméstica, a artista diz que quer permanecer no meio das artes plásticas e continuar representando a poesia de forma libertadora. Além disso, como poeta e cantora, ela é sempre chamada para tocar em shows, eventos e festivais tanto na Região quanto em outros lugares do País. Já participou do acampamento do Levante Popular da Juventude em 2015 no Mineirinho em Belo Horizonte e do Polo Azulão em Caruaru, nas festas juninas.
Por que Nay Harrison, o seu nome artístico?
Meu nome é Naiara Márcia Lucena e Silva, mas o artístico é Nay Harrison de Lucena. O Harrison é por conta de George Harrison dos Beatles. Eu gosto muito dele, da sua conexão com a espiritualidade. De Lucena, porque Lucena é meu sobrenome, uma homenagem ao meu avô.
Você falou, agora, sobre seu avô ser uma das suas inspirações. Quais seriam suas inspirações como poeta?
Eu tenho muitas inspirações, mas, primeiramente, foi a família que me influenciou: meu avô, minha avó e minha mãe. Meu avô é uma figura muito importante para mim, porque aprendeu a ler com literatura de cordel. Ele fazia poesia. Não costumava escrever no papel. Ele costumava aboiar (ato dos vaqueiros de cantar no Sertão). Ele é vivo ainda. Foi vaqueiro. Falava sobre o dia a dia como vaqueiro. Essa coisa de festa, de beber. Ele não costuma escrever, improvisa. Minha mãe não escreve mais, mas ela escrevia poesias românticas. Outras inspirações, foi Augusto dos Anjos, porque eu o acho muito mórbido e rock and roll ao mesmo tempo. Ele me inspirava no jeito de rimar, lembra muito cordel também. Hilda Hilst também, ela é louca. Eu gosto muito dela. Conceição Evaristo e Zeto de São José do Egito, que me representam demais. Ariano Suassuna também por causa do jeito dele. Os cordelistas que eu conheço atualmente são sem graça. Já Ariano não, tem uma intensidade. Mostra um Sertão encantado. Com Ariano, eu sinto identificação. Alguns amigos me disseram, “nossa, você como poeta negra, você não tem uma poeta negra que te inspire?” São poetas brancos, mas, para mim, não há problema porque eu sou negra e faço poesias. Então, represento a mim mesma. Mas isso não quer dizer que não admire outros poetas negros.
O que te levou a escrever poesia, é algo desde a infância ou começou após algum acontecimento?
Eu já escrevia desde os 7 anos, quando aprendi a ler. Eu escrevia umas coisas. Às vezes, jogava fora, não gostava. Outras, guardava.
É notável todo teu apreço e respeito por essa forma de arte, então, o que seria poesia para você?
Poesia para mim é minha vida. É tudo que eu sei fazer, minha respiração mesmo. Acho que tudo que é arte, poesia. Escrever roteiro, conto, é o que sei fazer. Eu gosto muito de música. Toco um pouco de gaita. Eu quero estar no meio das artes plásticas, do cinema. Eu já trabalhei como empregada doméstica. Minha mãe é professora e sempre disse, “você precisa trabalhar e ser independente”. Eu fui, mas fiquei depressiva. Eu fiquei fazendo arte. Quer dizer, antes trabalhei panfletando. Mas, depois, desisti. Hoje, trabalho profissionalmente com poesia. Eu imprimo meus livros, vendo. Quando eu não estou com os livros impressos, estou recitando. E o pessoal me paga para recitar em vários lugares, bares. Recentemente, fui ao Abril Pro Rock em Recife e gravei um poema meu, o Mentecapto. O poema que está no CD da banda 70 miligramas (70mg), aqui, de Caruaru.
Pesquisando nas redes sociais, dá para ver que existe um forte engajamento teu e de outras pessoas com a cultura de Caruaru. Vocês também lutam por ela como forma de resistência? O que te incentiva e como você vê a poesia, aqui, na cidade?
Eu percebo que, em Caruaru, há uma desunião enorme entre alguns artistas. Claro, cada um tem seu motivo, mas, apesar de cada grupo ter seu grupinho, eu consigo chegar no pessoal, converso. No geral, me sinto à vontade, bem acolhida pelo poeta Nelson Lima que organiza alguns eventos na casa de cordel. Ela fica localizada, aqui, na Estação Ferroviária. Existem pessoas que começaram, mas não conseguiram esse apoio com a minha idade. Muitos poetas, amigos meus, me disseram “você é privilegiada por isso”.
A estação em Caruaru, hoje, é o lugar mais representativo em relação à cultura da cidade. E sabemos que esse lugar não possui os investimentos necessários para se manter vivo. No início do ano, houve uma ameaça de derrubada e transferência “das casinhas” para um galpão, este que seria aberto apenas em datas comemorativas. Qual é tua posição diante disso?
Sobre os investimentos, eu não sei se tem, porque dinheiro de prefeitura eu nunca recebi. Eu participei do Polo Azulão. Recebi o dinheiro porque os meninos da 70mg me deram, mas ninguém possui o acesso direto com eles. Então, em relação às atividades culturais, é tudo independente. É a união entre os artistas. Eu vou viajar a São Paulo e participar da balada literária de Marcelino Freire, até conversei com Daniel Finizola e ele vai conseguir minhas passagens de ida e volta. Eu só não vou na Fundação de Cultura porque eu sinto um certo preconceito. Não sei dizer se é pelo meu estilo, mas, lá dentro, com os grandões, eu não tenho amizade com ninguém. Além disso, acho um absurdo a retirada do local. Eu acho que deveriam melhorar as casinhas. Todas são feitas com madeira, é perigoso de pegar fogo. Deveriam reformar, ver outra maneira segura. Na verdade, investir em outras soluções.
Nós estamos vivenciando tempos difíceis no País. Além de poeta, falando de ti, como pessoa, cidadã, mulher negra, você se sente representada por esses dois candidatos que estão disputando o segundo turno?
Eu sou a favor da democracia. Eu não quero que Jair Bolsonaro (PSL) seja eleito. Ele não gosta de artistas. Ele está usando muitos artistas que estão apoiando ele. Ele é racista, xenofóbico e machista, sem condições para governar o país. O pessoal diz que ele é o novo. Uma pessoa que apoia o Ustra (ex-chefe do DOI-CODI na ditadura militar no Brasil), idolatra alguém que estuprava mulheres, não há nada de novo. Eu me sinto mais representada, totalmente, com o candidato à presidência Fernando Haddad (PT) e sua vice, Manuela D’Ávila (PCdoB), porque eles defendem o povo negro, LGBT, o pobre, a minha existência. Eles são humanos. Em Bolsonaro, não há nada de humano.

Diante do resultado das eleições nas últimas pesquisas, estamos prestes a eleger um candidato à presidência de extrema-direita. Qual é o papel que a poesia desempenha nesse cenário político?
Acho que precisa existir poesia. Tem que ter arte, porque arte é revolução. Então, a Democracia é arte, é liberdade. Eu continuarei de todas as formas, vou continuar. Sempre há uma desordem, a poesia precisa fazer esse papel de denúncia.
Você fala sobre esses assuntos em suas poesias? E nos outros livros, o que eles te representam? Foram criados em uma fase específica da tua vida?
Falo sim. Eu comecei falando mais sobre mim, minha timidez, algo mais romântico. Hoje, eu tenho uma timidez espalhafatosa, como na música de Caetano Veloso. Quando eu vim morar em Caruaru, em 2013, eu estudava no Vicente Monteiro. Eu era bem matutinha. Tinha morado no sítio em Tacaimbó. Quando vi o pessoal muito mente aberta, fumando maconha (risadas), gostavam muito de rock, como eu, me senti bem acolhida, apesar de tímida. Tinha muita gente gay e eu achava massa aquela galera livre. Mas eu tinha muito medo, no segundo ano, de olhar para as pessoas. Elas eram muito bonitas e desconstruídas. Foram muitas experiências e inspirações que acabaram sendo refletidas nos cordéis e livros. Às vezes, eu sinto que tenho orgamos com alguns personagens, principalmente, em cenas eróticas e de boêmia. Mas eu estou fazendo algo mais social, agora, sobre as dificuldades que eu e minha família passamos, como denúncia. Tenho essa veia bem existencialista, mas também bem social. Todos os meus livros retratam uma parte específica sobre mim.

Recentemente, tu publicou um livro chamado Nos incandescentes umbrais de Caruaras, poderia falar, um pouco, sobre o que te levou a escrevê-lo?
É um conto ficcional, que tem algumas cenas eróticas. Surgiu de uma paixão por alguém. Então, tem eu como personagem, mesmo que de forma indireta. Às vezes, eu brinco com isso em meus livros.
Então, se pudesse te definir como algo, o que seria?
Arte e poesia. Arte é fruto espiritual. A espiritualidade está na arte. Ela é anárquica, é liberdade.
