A fotógrafa Ana Lira divide um pouco das experiências e conhecimentos adquiridos no Sertão pernambucano, fala sobre os estereótipos que ele carrega e como sair desse lugar.
POR DIEGO MENDES
Ana Lira é fotógrafa, artista visual, pesquisadora e especialista em Teoria e Crítica da Cultura. Em nosso encontro, na Universidade Federal de Pernambuco, numa cantina do Centro de Artes e Comunicação (CAC), falou sobre seu projeto Terrane que propõe um diálogo com as Cisterneiras do Semiárido brasileiro, as narrativas da vida sertaneja — contadas na fotografia dela e de outros fotógrafos —, as dinâmicas de fotografar esse lugar com seus estereótipos, a indústria da seca e as vivências adquiridas no intercâmbio de saberes entre o fotógrafo e o fotografado.
Existe uma fórmula para representar o Nordeste nas fotografias?
Eu estou tentando, com esse projeto que venho desenvolvendo, desconstruir essa ideia de representação. Existe uma dinâmica muito importante de tentar pensar a fotografia como um encontro, um compartilhamento de saberes estabelecido enquanto se fotografa as pessoas. O projeto Terrane tem uma proposição efetivamente de convivência. Eu e as meninas nos acompanhamos pelas redes sociais, eu ligo para elas, elas me ligam, trocamos fotos de família, quando eu não estou lá acompanhando, elas se fotografam e me mandam. Na própria dinâmica do trabalho, eu não publico nada sem que elas autorizem, porque envolve crianças, narrativas pessoais. Eu entro em um tipo de trabalho completamente distinto dos quais a maioria dos fotógrafos documentais e fotojornalistas fazem, no qual o contato pós-fotografia não acontece. Eles consideram que existe uma narrativa deles para além da narrativa dessas pessoas sobre a própria região. No meu caso especificamente, não faz sentido uma narrativa que não seja nossa, tem de haver esse diálogo entre o fotógrafo e o fotografado. Por exemplo, se eu fosse fazer um livro que contemplasse somente a minha visão das coisas, ele teria minha narrativa, mas o livro que estou construindo é feito do diálogo com essas mulheres. Eu tenho desenvolvido esse tipo de raciocínio nas minhas produções. A imagem que se vende do Nordeste como um território de impossibilidades, de um povo que precisa ser tutelado pelo Estado não pode mais acontecer, da minha câmera não vai sair nenhuma foto que demarque um lugar negativo da nossa existência. Nesse sentido, não penso que exista uma fórmula para fotografar, acredito que enquanto fotógrafos, nós precisamos refletir sobre o que estamos entregando para as pessoas.

Durval de Albuquerque Júnior, no livro “A Invenção do Nordeste”, faz uma crítica a grandes nomes da literatura que acabaram criando um estereótipo, mesmo que a intenção fosse de denúncia. Como você enxerga essa relação na fotografia do Sertão?
Precisamos ter cuidado com essa questão do que é denunciar. Eu acho a denúncia importante, mas se nós a percebemos apenas como uma estratégia de visibilização de um problema, colocando a figura envolvida sempre no lugar de vítima incapaz, instituímos um discurso no qual a única forma de existência dessa população é sendo tutelada pelo estado. É justamente esse discurso que tem justificado essa ode de morte aos nordestinos. O processo da denúncia como tem sido feita classicamente, e aqui entra o cinema novo, Glauber Rocha e todos os cineastas que tiveram no Nordeste, os fotojornalistas como um todo, entram em um panteão que denunciou muito, mas nunca disse coisas como o que essas pessoas têm condições de fazer. Eles não estão fazendo porque são roubadas. O dinheiro vem para ser redistribuído, mas não chega até elas e, quando isso não aparece, passa a ser feita uma leitura de “coitadinhos tão precisando da ajuda do governo”. Assim, se estabelece a ideia do Nordeste como um fardo em um país que constrói a noção de meritocracia. Às vezes nos confortamos em apontar o problema, mas não nos movemos para além daí. Se não houver uma sensibilização efetiva pela situação e a partir dela, se não começarmos a mobilizar redes, estamos apenas apontando como já fizeram e continuam fazendo. Eu tenho tentado sair dessa imagética clássica da terra rachada, buscando levar isso para um outro lugar.
Recentemente o candidato à Presidência no primeiro turno, Geraldo Alckmin ex-governador de São Paulo veio ao Nordeste em campanha política e tirou uma foto com um chapéu de vaqueiro, segurando uma panela de alumínio, como você vê essa imagem?
Isso é o ápice da desconexão dessas pessoas com o Nordeste. Eles não sabem o que é essa Região. Vemos a imagem no Nordeste ainda na berlinda, somos vistos como a escória do país, quando na realidade não somos. Desenvolvemos um modo próprio de existência que foi criado justamente por vivermos tanto tempo excluídos das possibilidades de exercer uma autonomia que nós temos. Como podemos esperar políticas públicas de um Governo que não entende esse lugar? É impressionante como as pessoas não compreendem a seca enquanto fenômeno natural. Isso é o que mais me choca. Elas entendem a neve, os tsunamis, mas não conseguem compreender a seca e os seus ciclos. Nós estamos passando por um momento muito perigoso, principalmente para a construção dessa imagem. Depois do resultado das urnas no primeiro turno, o Nordeste se tornou um lugar a ser domado. Isso é perigoso para nós fisicamente, enquanto lugar de políticas públicas, no que se desdobra para o circuito da arte, fotográfico e de projetos culturais. É problemático porque os próprios nordestinos acabam comprando esse discurso porque ele na verdade é um discurso que não é feito para além dos outros, é um discurso acompanhado de uma noção de hierarquia, de “nós do sudeste somos superiores, vocês, nordestinos, são inferiores”.
Que imagem na sua opinião, poderia subverter o discurso imagético da terra rachada, das caveiras, do Nordeste criado para se contrapor às transformações econômicas e políticas, um mundo de imagens sobre o que é o Sertão e como ele deve ser mostrado?
Nós podemos começar refletindo sobre quais são os sentidos de autonomia e independência no Nordeste e a partir dessa reflexão pensar quais imagens se conectam com esses conceitos. Precisamos pensar na seca enquanto fenômeno natural, entender esse lugar, o que as pessoas que vivem ali trazem de informação e produção de conhecimento sobre os ciclos da seca. Eu passei por uma experiência muito interessante quando visitei Cabrobó, Sertão de Pernambuco, como assistente de um fotógrafo. Fomos visitar um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que tinha acabado de ser assentado. Estávamos conhecendo as famílias quando um senhor de uns 60 anos apareceu e disse que queria nos mostrar algo. Fomos caminhando com ele e de repente chegamos à beira de um açude. Quando olhamos para baixo, tivemos um choque. Era uma mega plantação de melancia, ervas, tomates, milho e maracujá no fundo do açude. De acordo com ele, para não morrer de fome, foi olhar o que tinha no entorno e quando pisou no fundo do açude percebeu que estava úmido. Plantou e conseguiu sustentar essas famílias durante mais ou menos um ano. Essa figura já tinha passado por mais de um processo de estiagem e conhece a dinâmica dos ciclos da seca. Se isso pode ser produzido no fundo de um açude, também pode ser no fundo de uma cacimba, em um rio que acabou de secar. Isso é um tipo de metodologia de produção de conhecimento que nós não acessamos. Muitas vezes os fotógrafos vão para esses lugares, mas fotografam apenas pelo exotismo. Não pensam nisso enquanto uma metodologia de produção de conhecimento que pode ser repassada, como um saber ancestral, uma potencialidade que está ali se colocando. É a ausência desse pensamento, que vem da ideia de que a minha narrativa importa sobre a sua e faz com que nós continuemos produzindo, ainda, esse mesmo tipo de imagem estereotipada do Nordeste. Eu consigo me deslocar desse lugar porque estou o tempo todo pensando em como sair dele.
Quem é Ana Lira e qual o olhar dela para nordeste?
Eu penso muito nesse lugar da exposição, de que narrativas podem violar a nossa existência, quais situações podem abrir espaço para que as pessoas sejam violentas com o que eu faço e com quem eu fotografo e talvez seja esse o lugar que faça com que eu me desloque no mundo. Eu tenho cada vez mais exercitado o processo de escuta, de não considerar que a minha narrativa pode se sobrepor a de quem eu estou fotografando. Por exemplo, algo super importante que eu descobri quando estava fotografando as Pedreiras é que eu não sou necessária. Elas se fotografam. Elas têm uma produção imagética sobre a existência delas. Estamos juntas porque nos gostamos, nos respeitamos e, de alguma forma, o modo como eu olho para elas faz com que se sintam valorizadas, tal qual o modo como sou vista me faz sentir valorizada também. Então, nós construímos uma relação de respeito mútuo nesse lugar. Eu tenho que ter muita responsabilidade com esse lugar de poder que eu ocupo. Querendo ou não, eu tenho uma formação intelectual e acadêmica que nesses lugares é entendida como lugar de superioridade. Eu não posso exercer esse lugar da maneira como alguns exercem, de utilizar esse poder para subjugar o outro. Há também uma transformação do meu espaço de existência. Eu comecei a abandonar o meu currículo e não pensar tanto na importância disso. Tenho tentado entrar em um processo de autoconhecimento para entender quem eu sou, qual a minha importância para além da qual o circuito tradicional do trabalho nos atribui. Eu gosto de contar histórias, gosto de ouvir e é nesse lugar que tenho atuado, cuidando eticamente para que as histórias que eu conto não circulem no mundo de uma maneira que possa prejudicar quem está me contando e me prejudicar também. Hoje em dia, me interessa mais que a relação com essas pessoas, as quais eu fotografo, seja a mais bonita que eu posso estabelecer e se para isso existir, a minha fotografia precise ser extremamente simples, ela vai ser ou ela pode nem existir.
