O idealizador do Galo da redação, Pedro Gomes, dá dicas, em entrevista, de como se manter tranquilo para a prova do Enem e conta um pouco de como o projeto começou.
POR BEATRIZ LIMA
O aluno do quarto período do curso de Comunicação Social da Universidade federal de Pernambuco, no Campus Caruaru e idealizador do projeto chamado Galo da Redação, nos conta nesta entrevista como o trabalho ajuda vários alunos a descobrir como se sair bem na Redação de Enem e explorar todo o seu potencial. Em entrevista à repórter Beatriz Lima ele fala sobre o surgimento do Galo, como ele se tornou um projeto de extensão – ações que ligam a universidade ao público de fora – os resultados obtidos no último ano e as expectativas para este ano de 2018. No fim, Pedro ainda aconselha que o vestibulando mantenha a calma e confie em si mesmo, pois, para ele, esse é um ponto fundamental para o bom desempenho na prova.
Pedro, como surgiu a ideia do Galo da Redação?
Na verdade, foi desde 2016, eu pensava muito em criar alguma coisa que ajudasse a galera que está se preparando para o Enem porque eu me via muito inferior aos meus colegas. Eu não estudei em um colégio de elite daqui da Caruaru, mas o meu colégio era particular e tinha uma certa desigualdade entre os estudantes: os que podiam pagar um cursinho e os que não podiam. Eu estava entre os que não podiam e pensava, eita, eu não tenho tanta oportunidade, se eu conseguir, eu vou poder dar essa luz para quem também se sente como eu. Nessa época, começaram a surgir várias páginas de rotina de estudo no Instagram e eu senti muita vontade de fazer isso, mas eu não tinha celular. No fim de 2016, eu fiz uma promessa de que, se eu passasse no vestibular, daria um jeito de conseguir um celular e criaria a página. Eu passei, inclusive, com nota 960 na redação e dei um jeito, consegui um celular. Fiz o perfil e pedi para os meus amigos divulgarem. Foi assim que começou, uma coisa bem caseira, bem amadora. Depois, veio a ideia de amadurecer esse projeto, que, até então, eu nem chamava de projeto. Na faculdade, eu descobri que existia isso de projeto de extensão e ligou uma luz. Pensei será que aqui em Caruaru tem alguém que queira acompanhamento de redação? A partir daí, surgiu essa reverberação do Galo, que são as turmas presenciais.

O nome do projeto é muito interessante, de onde veio a inspiração?
Galo é o símbolo da comunicação publicitária, um curso que eu também gostava muito, e me chamava muita atenção essa simbologia de que, na publicidade, o galo é o animal de força e que representa o novo. O publicitário precisa estar sempre inovando e ele é o primeiro animal que acorda, ele anuncia o amanhecer, o novo. Então, eu juntei isso com a redação para que nela as pessoas mostrassem o seu novo, para que não fossem uma coisa padronizada.
O Galo teve início no Instagram, mas hoje já possui uma página no Facebook e conta também com aulas presenciais. Como é a metodologia nesses três espaços diferentes?
No Instagram, a metodologia surgiu a partir da deficiência que eu notei nas outras páginas. Antes, as páginas de redação eram uma coisa muito básica, estudando a partir do Instagram você não conseguia fazer um texto. Eu senti a necessidade de ter uma página que explicasse o passo a passo da redação e, além disso, como ser diferente e transformador a partir de um texto. Falo sobre o mundo que os jovens estão abarcados: redes sociais, séries, filmes e músicas. Eu pego essas coisas e tento acoplá-las, de alguma forma, para a redação justamente para que o perfil fique mais atrativo, inclusive, um dos posts que a gente tem mais curtidas é o dessas alusões doidas com Harry Potter e Vingadores. Nas aulas presencias, é a mesma coisa. Tudo segue o mesmo padrão de metodologia, mas adequando aquele contexto. No Instagram, é algo mais objetivo. Já nas aulas presenciais, a gente aprofunda mais essas questões. O Facebook existe mais para sincronizar isso. O que é interessante é que no Instagram são mais os estudantes que comentam. Enquanto, no Facebook, têm mais professores e outras escolas. É bem legal ver os professores marcando vários amigos.
Como você comentou, o Galo foca bastante e de uma forma muito inovadora nas alusões que são usadas na redação. Como funciona o processo criativo e de pesquisa para pensa-las?
É justamente para você reconhecer a criticidade do contexto. Se você ouve uma música com um olhar crítico, você consegue notar que aquela música pode falar de um possível tema de redação. Então, é sempre ver um link entre o que o mundo apresenta e o que essas produções estão falando. Por exemplo, estamos num cenário de feminicídio e existem músicas que podem tratar sobre feminicídio, sobre a desvalorização da mulher, sobre empoderamento feminino. É basicamente isso, fazer o link entre essas coisas, ligar a lâmpada do senso crítico e começar a notá-las, é o que eu incentivo muito os meninos do Galo a fazerem.
O Galo da Redação cresceu bastante e em um período relativamente curto. Em menos de dois anos já tem mais de 36 mil seguidores em sua página no Instagram, a sua principal rede. Como você faz para gerenciar a demanda? Conta com a ajuda de alguma equipe?
Então, eu sou uma pessoa um pouco doida, mas eu estou conseguindo graças às novas pessoas que entraram. Ano passado eu tomava conta de tudo: os perfis, a correção das turmas presenciais e on-line, as respostas das dúvidas no direct e produzir posts. Então, este ano, eu chamei quatro pessoas que eram do Galo no ano passado e amaram o projeto. Temos agora duas corretoras, duas social midias, uma pessoa no administrativo e outra pessoa que cuida do psicológico da turma, ela é estudante de psicologia. Eles são todos estudantes. Temos um pré-vestibulando que quer a área administrativa, é ele que está no administrativo. Duas que são muito engajadas no ramo da escrita fazem as correções. Uma delas faz engenharia, que não tem nada a ver, mas ela gosta muito de escrever e, inclusive, foi ela quem tirou 980 na redação ano passado. A outra é estudante de direito. Eu vou vendo a habilidade que aquela pessoa tem e a coloco numa função que antes eu fazia. Nós temos um cronograma com todas as atividades do mês e cada um vê o que tem que fazer. Eu percebo que eles estão conseguindo compreender realmente o sentido do projeto, que não é só uma exposição, tem toda uma causa social por trás dele.
Sabemos que esse é um momento de muita tensão e ansiedade entre os vestibulandos. Além do aspecto técnico, os alunos buscam apoio emocional no Galo?
O Galo é a resposta que eu tenho para o mundo daquilo que eu não tive. No meu Ensino Médio, eu não tive alguém que me dissesse que tudo ia dar certo, independentemente de qualquer coisa. Pelo contrário, ele foi uma coisa muito pressionada, muito no sistema produtivista mesmo. Eles me diziam, “você tem que dar certo, você tem que passar, você tem que tirar uma nota boa”. Dentro desse sistema externo, eu tentava criar um sistema interno para não enlouquecer. No Galo, eu tento trabalhar motivação, o que eu acho muito importante, a libertação da criatividade das pessoas, para que assim elas se reconheçam. No ano passado, todas as aulas começavam com isso, com motivação. Esse ano, Mariana, a estudante de psicologia que trabalha com a gente, conversa semanalmente com todos os alunos dando dicas de estudo, de como relaxar e diminuir o nervosismo.

O desempenho dos alunos é impressionante. As notas divulgadas no perfil variavam entre 700 e 980 pontos. Qual foi o sentimento ao ver os frutos desse trabalho?
É de missão cumprida mesmo, sabe?! Eu me via ano passado e ainda este ano, ficando doido, mas eu sabia que era por uma boa causa. Quando eu vejo esses resultados eu vejo o meu sonho se concretizando ainda mais porque eu percebo que não é em vão. Um comentário que me abastece bastante é: “Pedro, a partir disso, eu mudei o que eu pensava sobre texto, mudei o que eu pensava sobre o mundo”. Escrever é também falar sobre o mundo e ver o mundo com outros olhos, é justamente se modificar. O sentimento que eu tenho é de plena gratidão mesmo, de missão cumprida e de que tem mais pela frente. Tem mais pessoas que precisam. Eu gosto muito de um público específico, que é o pessoal de escola pública que, por muitas vezes, tem o ensino de português e redação comprometido, principalmente em comparação aos de instituições privadas, inclusive a aluna que tirou 980 era de escola pública e não conseguia sair dos 600. Ela já chegou a tirar 480, 500 e pouco e, quando chegou no Enem ela arrasou, porque ela acreditou em si mesma e é muito bom ver esses resultados.
E, por fim, a duas semanas da data da prova, como estão as expectativas para este ano e qual é o recado que você deixaria para quem vai prestar o exame?
A duas semanas da prova, o projeto em si tá muito empenhado. A gente está fazendo ao vivo praticamente toda semana no Instagram. O pessoal da equipe estimula bastante. Quando a gente se junta, é realmente para transformar. Neste momento, a gente está tentando trabalhar com os meninos de uma forma que eles não se sintam pressionados. Manter a calma e preservar suas mentes para não enlouquecer. E para os vestibulandos por aí a fora, eu desejo que tenham uma garra maior de si mesmos, porque você fazer a prova do Enem é trabalhar com o seu próprio sonho. Quando você trabalha com o seu sonho, ele vai te exigir algum esforço e você tem que estar preparado de todas as formas para isso. A saúde mental é o principal para fazer uma boa prova. Então, emitam para vocês mesmos mensagens de autoafirmação, de positividade, digam “eu consigo”. A gente não é desprovido de conhecimento, só é preciso ligar a lâmpada na cabeça para ver que, de cada momento que a gente passa, a vida ensina alguma coisa e, na prova, isso é muito importante porque as próprias questões são montadas em situações cotidianas. Se você tem o conhecimento, vai dar certo! O melhor investimento nesse momento, é manter a calma e se auto afirmar enquanto conhecedor e enquanto pessoa que tem capacidade.
