A catarinense, que não desassocia arte de política, fez performance no Centro Acadêmico do Agreste ( CAA).
POR LUCAS RIBEIRO
Artista catarinense, atualmente residindo em Arcoverde, Renna Costa performou na quadra do Centro Acadêmico do Agreste (CAA), durante a Feira 33, organizada pelo Diretório Acadêmico de Design com o intuito de promover práticas empreendedoras entre os estudantes do campus. Antes da apresentação, ela concedeu entrevista ao repórter Lucas Ribeiro sobre as origens de sua performance, que bebe da cultura popular e das pautas de gênero e de sua visão do quadro político atual, como ativista e mulher transexual. “A cultura popular de Pernambuco foi o que me trouxe aqui em primeiro lugar”, contou ela que, formada em teatro, diz ter encontrado nas ruas o caminho para uma arte mais acessível. “O teatro é muito burguês eurocêntrico ainda”, disparou, contando que faz bicos para se sustentar. A artista destacou ainda que a política está sempre junta de sua arte por uma questão de identidade. “Trago esse
discurso de gênero. Esse discurso do meu corpo político que é rejeitado dentro da cultura
popular, da arte e de outros espaços”, considerou.
Qual o tipo de performance que você realiza?
Eu venho do teatro. Sou formada em licenciatura e bacharelado em Teatro pela
Universidade do Estado de Santa Catarina. Desde 2011, me envolvo com um grupo,
procurando produzir uma arte mais ativista. Encontramos nas ruas, nos
espaços públicos, o caminho para essa arte, para que ela tenha mais acesso.
Porque o teatro que estamos mais acostumados, aquele que aprendemos na
universidade, é muito burguês e eurocêntrico ainda. E é a partir desse
coletivo teatral, que depois abrangeu outras artes, e dos movimentos sociais, da
militância, que produzo a minha arte em performance.
Esse ativismo artístico se concretiza pelos temas que você aborda ou pela maneira como eles são abordados?
Pelas duas coisas. Eu acredito numa arte estética com um discurso político. Tento buscar
referências estéticas a partir da minha vivência dentro da cultura popular, que é um outro universo. Mas trago esse discurso de gênero. Esse discurso do meu corpo político que é rejeitado dentro da cultura popular, dentro das artes e de outros espaços. É uma junção desses dois lugares.
Você sente que teve um bom ‘acolhimento’ na cultura popular de Pernambuco?
Com certeza, a cultura popular de Pernambuco foi o que me trouxe aqui em primeiro lugar. Ela está no cotidiano e em vários lugares. Não há a questão
do status que a arte acadêmica ou a arte de museu produz. Não venho de um espaço no qual a cultura popular nasce, mas tento me apropriar dessa essência de fazer arte em diferentes espaços. Seja em uma quadra, seja na rua, na festa ou no bar.
Enfim, em todos os espaços.

Você se mantém disso? Ou tem um trabalho
fixo e faz arte nas horas vagas?
Não, é doido isso, porque a arte, realmente, não dá dinheiro. Muitos artistas escolhem trabalhar dando aula. Por um tempo, na minha cidade, eu fiz isso
paralelo às minhas criações. Mas aqui, em Pernambuco, como viajo, e viajo muito, não tenho emprego fixo. Então, faço bicos. Tanto de ir para rua tocar, que é um lugar de formação para mim,como ir em feiras, subir em ônibus, tocar um pandeiro, cantar música tradicional e tirar dinheiro disso. Passei muito tempo viajando e a maneira
que encontrei para conseguir dinheiro foi essa.
Considerando as declarações ofensivas à comunidade LGBT e uma
promessa de “acabar com todos os tipos de ativismo“ feitas pelo presidente eleito da República, Jair Bolsonaro, como você se sente nesse momento?
Acho que essa é a hora, mais do que nunca, de colocar a cara no sol, mostrar
ao que viemos. E se fortalecer enquanto movimentos de bases. Falo isso dentro
das artes e não dentro de movimentos sociais. Muitas de nós, embora
oprimidas dentro dos nossos contextos, não conseguimos nos reconhecer umas
nas outras. Para mim, o grande objetivo é a gente se encontrar, se olhar nos olhos,
se tocar. Para que a gente se reconheça enquanto potência e consiga sair do casulo, ocupar novos espaços e estar na luta. Mas acho que precisamos nos fortalecer, primeiro.
