Autódromo Internacional Ayrton Senna em Caruaru deixou de sediar grandes provas do automobilismo nacional por falta de estrutura adequada
Por César Martins, Heberton César e Jeferson Macêdo

O Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Caruaru, Agreste de Pernambuco enfrenta problemas de infraestrutura que dificultam a realização de grandes eventos automobilísticos. De acordo com o diretor do autódromo, Amon Queiroz, é necessário um projeto de revitalização que abranja todo o local. “Desde que o autódromo foi inaugurado em 1992, as reformas que aconteceram foram remendos. Não se pode fazer isso em pista de corrida. Se colocar um asfalto em cima do outro, um carro vai vir a mais de 200km/h e bater na pista. O que precisa fazer nesta pista é arrancar todo o asfalto e fazer outro”, critica.
Para o diretor da Garagem 83, Elton Duarte, empresa que organiza eventos de esporte a motor, a pista requer maior atenção, além de outros serviços do autódromo. “O acesso à pista, à parte elétrica e aos banheiros deixam a desejar. A estrutura para o público e a lanchonete também passam por precariedades. Como foi construído em 1992, na época atendia as normas, mas hoje está um pouco defasado”, relata.

A estrutura da pista comporta apenas carros de médio porte, por exemplo Campeonatos de Marcas e Pilotos, que são carros como Pálio, Uno , Corsa, Gol, entre outros. Na chuva forte, não existem condições para corrida, exceto quando a pista estiver molhada. Amon Queiroz enfatiza que o circuito já não recebe grandes provas, como a Copa Truck, categoria composta por caminhões (antiga Fórmula Truck) e que recebia uma média de público de cerca de 40 a 60 mil pessoas.
“Para quem tem carros mais simples, tudo bem, vem de 80 a 100 carros correr aqui à noite, mas os carros fortes que vemos na televisão não vêm. A Picape Reis, por exemplo, corria aqui, eu pilotei. A cada dez voltas, era preciso parar para trocar o assoalho do carro que era feito de madeira. A pista acabava com os carros, dava pra ver o chão de dentro do carro. Não veio mais. A Copa Corsa também não vem mais”, comenta.
O CIRCUITO
O desenho do autódromo foi projetado pelo o engenheiro Edson Cruz. O terreno, onde foi construído o autódromo, coincidentemente, chamava-se Fazenda Corredor. O custo da obra foi R$ 1,5 milhão e durou cerca de dois anos, sendo inaugurada em dezembro de 1992. Edson Cruz relata que, inicialmente, ajudou a arcar com os custou das obras. “No início, eu arquei com a construção sem custo nenhum para o município em uma doação que, hoje, seria em torno de R$ 50 mil. As empreiteiras foram todas da própria região, o que acabou custando 50% do valor das propostas vindas de fora”, retrata.
O desenho do circuito é elogiado como relata Rubens Júnior. “Em congressos da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, o comentário sempre foi que temos a melhor pista do Brasil. É uma pista seletiva, tem retas médias e um trecho travado de curvas de alta velocidade, é uma pista técnica difícil de se ultrapassar, porque o piloto precisa ‘ter braço’, destaca.
Para Elton Duarte, o desenho do circuito já foi prestigiado por nomes, como o ex-piloto da Fórmula 1 Rubens Barrichello. “Caruaru é um dos maiores circuitos do brasil. Muitos pilotos que já andaram por aqui, por exemplo, o Rubens Barrichello e outros pilotos nacionais conhecidos, adoram o circuito de Caruaru. Você para aprender a andar aqui tem que andar muito. Possui pontos com subidas e descidas, variantes de alta velocidade e muitas curvas. É um dos melhores circuitos do Brasil. Todo mundo que corre aqui comenta dessa forma. Só deixa um pouco a desejar na estrutura”, afirma.
PROJETO DE REFORMA
Embora a estética do circuito seja elogiada, há necessidade de reformas na infraestrutura do autódromo. A Prefeitura de Caruaru, responsável pela manutenção do autódromo, está com um projeto de reforma que já foi homologado pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e possui quatro etapas: o recapeamento da pista, a requalificação dos boxes e do autódromo de maneira geral, além do acesso ao autódromo. O custo da obra está orçado em torno de R$ 13 milhões e tem como objetivo voltar a receber eventos automobilísticos de grande porte. Mas o secretário de governo de Caruaru, Rubens Junior alerta sobre as dificuldades de colocar este projeto em prática já que a prefeitura alega não ter recursos suficientes, sendo necessária a busca por parcerias com a iniciativa privada. “A nossa intenção é buscar parcerias com a iniciativa privada e com grandes empresas nacionais que investem no automobilismo para que façamos a reforma completa no autódromo, como a Petrobras, Vipal e o Distrito Industrial de Caruaru”, explana.
Rubens Júnior enfatiza que, depois das reformas concluídas, o autódromo já terá condições de receber grandes eventos automobilísticos. “Teremos condições de realizar qualquer prova que acontece no automobilismo brasileiro, Stock Car, Brasileiro de Marcas, Motovelocidade, Fórmula 3 Sul-Americana. Estamos trabalhando para dar melhores condições ao autódromo de Caruaru, mas para conseguirmos, precisamos de parcerias”, reflete.
GRANDES EVENTOS E OS BENEFÍCIOS À CIDADE
Atualmente, os dois únicos circuitos homologados pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), no Nordeste são: o Autódromo Internacional Virgílio Távora, localizado em Fortaleza, no Ceará, e o Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Caruaru. O último grande evento automobilístico que ocorreu no autódromo de Caruaru foi a Fórmula Vee. Amon Queiroz enfatiza que um evento de grande porte como esse traz benefícios, não apenas para o autódromo, como também para cidade.
“O último evento que aconteceu aqui, a Fórmula Vee, ficaram aqui da quinta ao sábado. Veio gente de todo o Brasil. Quando acontece um evento de grande porte como esse, cresce a rede hoteleira. Eu indiquei o City Hotel, eles lotaram. Portanto, há um crescimento na economia. Toda vez que tem um evento grande aqui, o dinheiro fica na cidade. Hospedagem, alimentação, shopping. Alguns vão conhecer a Feira de Caruaru. Também tem a venda terceirizada, a venda de picolé e barracas de lanche. As lojas de peças crescem, porque os carros quebram bastante”, comenta.
CALENDÁRIO 2019
Para o final de 2018 e início de 2019, grande parte do calendário do autódromo está preenchido. Ainda neste ano, o circuito receberá eventos como o Arrancada Noturna, Encontro de Som, a última etapa do Norte e Nordeste de Motovelocidade, a última etapa de Marcas e Pilotos que ocorre nos dias 15 e 16 de dezembro, a Jipe Croos, Fórmula/Copa Pálio e Velocross. Além de eventos que não envolvem o cenário automobilístico, como é o caso da corrida de Atletismo. No dia 23, uma etapa de Ciclismo será realizada. Para 2019, Amon Queiroz conta que está sendo organizada uma etapa do Campeonato de Marcas e Pilotos.
“O presidente da CBA (Waldner Bernardo) me disse que queria trazer para cá o Campeonato Nacional de Marcas e Pilotos. É um grid de 45 carros. O campeonato ocorre em Interlagos, Brasília, Cascavel, entre outros. Algo que nunca veio para cá”, comenta.
JOÃO LYRA NETO, DE CORRIDAS NA PRAÇA DO DERBY DO RECIFE, AO PRIMEIRO AUTÓDROMO HOMOLOGADO PELA CBA NO NORDESTE

De família tradicional na política pernambucana, João Lyra Neto, 65 anos, é filho do ex-prefeito de Caruaru João Lyra Filho e pai da atual prefeita de Caruaru, Raquel Lyra. Foi prefeito de Caruaru durante dois mandatos, entre 1988/1992 e 1996/2000. Foi justamente no primeiro mandato que surgiu a construção do primeiro autódromo brasileiro no Nordeste com condições de receber grandes eventos automobilísticos. A inauguração aconteceu no dia 13 de dezembro de 1992. Em entrevista, João Lyra Neto comenta, que, na inauguração, grandes nomes da história do automobilismo brasileiro marcaram presença, como o campeão mundial de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, e o ex-piloto da Fórmula 1 Rubens Barrichello. Ele lamenta a falta de interesse que as gestões posteriores deram ao autódromo.
De onde surgiu a ideia do autódromo?
Quando eu era estudante no Recife, tinha muita corrida de automóvel, na Praça no Derby no Centro de Recife e, depois, na Várzea, na Cidade Universitária. Começaram a surgir, no Brasil, grandes nomes a nível mundial do automobilismo como Emerson Fittipaldi que foi campeão mundial de Fórmula 1. Depois, Nelson Piquet, tricampeão da mesma categoria e Ayrton Senna também bicampeão da Fórmula 1. Eu, juntamente com a Federação Brasileira de Automobilismo (FBA) resolvemos adotar Pernambuco como autódromo. Obedecemos todas as recomendações da CBA e o construímos em uma área de 42 hectares para receber, inclusive, provas a nível internacional. Todo o projeto foi supervisionado pela CBA para que pudéssemos adotar Caruaru como o primeiro autódromo concedido com as características da CBA a nível internacional construído no Nordeste brasileiro.
Quais foram as principais dificuldades encontradas?
Tive todo o apoio da CBA e FPA. Não recebemos apoio do Governo do Estado. O dinheiro saiu do próprio município e não deixamos nenhum débito para gestões futuras, sem participação financeira de nenhuma instituição ou órgão público.
Houve um grande público na inauguração?
Na inauguração, estiveram presentes pessoas de vários estados. Foi uma belíssima repercussão nacional, porque esse autódromo que leva o nome de um dos maiores esportistas brasileiros, Ayrton Senna, foi o primeiro do Nordeste com as características exigidas pela CBA e infelizmente não foi dada a devida atenção, posteriormente. Com isso, Caruaru deixou de ser uma referência anual no automobilismo brasileiro. No momento em que inauguramos o autódromo, o Brasil se encontrava com grandes campeões no cenário automobilístico. Essa inspiração e esse momento que o automobilismo brasileiro passava me estimularam a fazer esse autódromo. A intenção era promover Caruaru e o inserir nesse esporte que estava em alta. Depois do futebol, é o maior esporte em nível mundial com a participação de brasileiros.
O autódromo já foi homologado para receber eventos de grande porte?
Fizemos grandes eventos aqui, a Fórmula Truck com mais de 30 mil pessoas. Além disso, teve a divulgação da cidade com a Fórmula Truck sendo transmitida pela televisão. Nelson Piquet esteve aqui. O presidente da CBA e o ex-piloto da Fórmula 1 Rubens Barrichello, também marcaram presença.
Qual a sua avaliação sobre a administração do autódromo nos governos posteriores já que o autódromo é de responsabilidade da prefeitura?
Infelizmente meus sucessores não deram a importância devida para que o autódromo se consolidasse como um instrumento importante. Eles não tiveram a visão que tivemos na época de adotar o autódromo de Caruaru como lugar importante para visibilidade e lucratividade da cidade. Além disso, era programado para ser um autódromo de escola de pilotos e servir para quem quisesse seguir na profissão, não só de carros, mas também de motos. Em alguns momentos, quiseram transferir a Feira de Caruaru para o autódromo. Na minha opinião, foi um equívoco e houve uma reação muito grande não só dos profissionais do automobilismo, mas também da população caruaruense. Então, o prefeito da época (José Queiroz) recuou. A infraestrutura tem que ser reestruturada para ser reinserido no automobilismo.
Qual a visibilidade e lucratividade que um autódromo traz para cidade?
Quando tinha eventos, os hotéis e restaurantes lotavam, a cidade se beneficia muito. O autódromo, como o de Interlagos, está promovendo eventos e shows de artistas. Ele está movimentado agora com espaço público de grande estrutura para receber milhares de pessoas e eventos. Mas, apesar disso, o foco é o automobilismo e a prefeitura está trabalhando nisso.
